Memórias, sonhos e reflexões de um quarto de hotel

Por ambientação um sobrado de 1914 na Rua da Glória, antes casa de família, antes pensão, antes refúgio, quase ruína, hoje hotel. Por protagonista e voz o quarto 201. Por palavras suas as que já ecoaram nos seus mais de 90 anos imobilidade, e as frases que aderiram aos tijolos.

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vicsaramago@gmail.com / saramago@stanford.edu

Tuesday, December 12, 2006

Andréia descobre o corpo

obs: Para entender melhor a história, é útil ler desde o post intitulado "As cabeças nas nuvens".


É difícil a noite com um cadáver dentro de nós. É difícil carregar a morte assim, como essência nossa. Nunca tive em mim uma morta, como Inocência, e menos ainda por uma noite inteira. Nunca vi mortos, nunca fui por eles habitado. (E aqui cabe repisar do meu grande sonho, o de ter um fantasma que preencha, que me atenue a solidão. Durante anos acreditei que pudesse ser Júlia, que pudesse ela voltar, depois de tantos anos no exterior, e décadas após a sua morte, o que quer que tenha sobrado dela fosse afinal se lembrar desse velho quarto que a acolheu, que a foi durante o que acredito ter sido o único período verdadeiramente feliz da sua vida. Que Inocência venha a me suprir essa falta de um fantasma: me faria bem.)
Mas a noite passou e não quero falar dela. Lembro-me dum livro que em mim leram há anos atrás, um inseto gigante com uma maçã apodrecida encravada entre suas asas, como ferida. Seja Inocência essa minha maçã de hoje à noite, e aí está tudo o que por ora direi sobre ela.
Conto desta manhã, de Andréia que me veio fazer a limpeza de todos os dias. Chegou pontualmente às dez, bateu na porta, e nada. Passou-se um tempo, voltou a bater. Nada. Andréia sabe que não é de bom tom insistir nesses casos: a hóspede pode querer dormir até mais tarde. Assim foi que até meio-dia Andréia aguardou, até não haver mais jeito. Forçou a maçaneta, a porta se abriu sem problemas. Só uma suicida para ter o cuidado de deixá-la destrancada. E das suas sobrancelhas contorcidas, o rosto tão pálido de quase sem lábios, dos gritos de pavor, o pano que levava à mão caído sobre o seu sapato e os braços petrificados apoiando-se na cômoda ao lado da porta, não, de nada disso tenho vontade de contar. Fique a cena na memória de cada um de vocês, breve e cortante como deveria ser. E fique também o que se seguiu, de como aos seus gritos logo uma meia dúzia de hóspedes e empregados a mim acorria, os rostos se multiplicando à minha entrada e ninguém entretanto com coragem a me adentrar e me livrar da Inocência maçã, até que a mim seu Castro, o dono, arrastando-se pelas escadas e os corredores, empurrando a todos os que se acumulavam como se espantasse cachorros, até o pé de minha cama, seus olhinhos mais arregalados do que jamais vira eu em 20 anos de convivência.
- Andréia, chama a polícia nesse minuto, murmurava ele. Neste minuto, Andréia, vai!
Mais uns cerca de 40 minutos e os policiais me ocupavam, incomodando-me com suas revistas a cada um de meus centímetros, examinando Inocência, tomando notas, a posição do corpo, a posição da arma. Seu Castro ao lado do delegado acompanhava tudo atentamente, a portas fechadas. Eu sabia que ele não confiava muito em policiais, e sentia nos próprios tijolos o quanto lhe devia ser penoso aquele episódio, o quanto se esforçava por ser simpático e, na medida do possível, acreditar que colaborava.
- Era uma boa moça, delegado, uma ótima moça. Passou mais de três semanas aqui, nesse quarto, antes de cometer esse desatino. Esses jovens são mesmo surpreendentes, não? Imagine o senhor: não saía, não bebia, não trazia gente aqui pra dentro, não fazia nada. Um anjo. E ainda pagava adiantado!
- Isso não diz nada, sussurrou o delegado, por entre os goles de café, a voz empastada pelo tédio. – Eles sempre pagam adiantado.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

eu me sinto dentro do conto... é lindo... Por que o trágico tem essa coisa de ser belo, incoerentemente belo?

beijo.

12/12/2006 2:53 PM  
Blogger Geraldo said...

Nossa, como esse quarto pensa! Acho que mais que eu...talvez eu esteja precisando passar uns 50 anos sem labor. Te linkei, Vic! Beijo!

(se aqui se podem fazer piadas, não tenho como não fazer o paralelo com teus hábitos alimentares quando você diz "É difícil a noite com um cadáver dentro de nós"...pois é, e além disso os médicos já descobriram: engorda)

12/14/2006 6:12 PM  
Blogger Sun said...

que lindo....

vc escreve mto bem

gostei da última frase "eles sempre pagam adiantado". Ambígua, não?

12/21/2006 3:40 AM  

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