<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619</id><updated>2011-09-17T06:24:46.739-07:00</updated><title type='text'>Memórias, sonhos e reflexões de um quarto de hotel</title><subtitle type='html'>Por ambientação um sobrado de 1914 na Rua da Glória, antes casa de família, antes pensão, antes refúgio, quase ruína, hoje hotel. Por protagonista e voz o quarto 201. Por palavras suas as que já ecoaram nos seus mais de 90 anos imobilidade, e as frases que aderiram aos tijolos.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>30</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-4893276369592501727</id><published>2008-12-22T18:24:00.001-08:00</published><updated>2008-12-23T03:31:11.033-08:00</updated><title type='text'>História Concreta da Arte Humana - Prólogo 2</title><content type='html'>Lembram daquela moça magrinha, pequenininha, cheia de sardinhas, o nariz arrebitado, que entrou aqui de fininho como quem não quer incomodar? Foi isso há dois posts atrás, no “Prólogo”.&lt;br /&gt;Pois é. Prólogo que se preze é o que vem antes de qualquer coisa, e é precisamente essa qualquer coisa o que agora apresento. É que, sabendo das visitas semanais da menina, me pus a imaginar uma continuação necessária para o caso, e aqui a tenho numa saída não muito insuspeita: a garota gosta de arte – recapitulemos -, desce da Região Serrana toda semana para uma aula de história da arte no Rio, me chega aqui abrindo livros e mais enciclopédias de toda sorte de pinturas, instalações e edifícios. Como não poderia eu estar pensando em arte?&lt;br /&gt; E penso mais: penso que todos os seres humanos são por natureza péssimos críticos de arte, exatamente por serem humanos e, portanto, sujeitos. Pois os livros da menina não cansam de assegurar a importância de um julgamento objetivo por parte do crítico, que o crítico não deve levar em conta seus sentimentos e histórias pessoais ao julgar as artes, e não deve adotar critérios subjetivos, e jamais deve escrever em primeira pessoa, e que deve evitar adjetivos como “bom” ou “ruim”, “feio” ou “bonito”, e por aí vai, até ficar praticamente certo que o crítico, no seu afã de objetividade, é aquele que abre mão de sua natureza carnal para se converter num monte de cimento, num tijolo, uma parede. E sendo eu justamente isto – cimento, tijolo, parede – sou, pela lógica, o crítico ideal. Ou assim me autoproclamo.&lt;br /&gt; Pensei por isso na boa idéia que seria brindar a humanidade com meus brilhantes e ideais julgamentos numa história definitiva da arte humana. Penso numa história que, traçada por um monte de concreto, seja inteiramente concreta. Dona de uma objetividade total, visto que totalmente arquitetada por um total objeto – e o que é mais objetivo que uma parede? –, desejo uma história que ponha fim a todas as pendengas e gritarias promovidas ao longo dos séculos por críticos enfurecidos e descabelados, sem dúvida incapazes de uma frieza implacável como a do meu cimento. Pensei chamá-la “História Concreta da Arte Humana”, mas ainda não estou muito certo. Na verdade, aceito sugestões.&lt;br /&gt; O único problema é que o que eu imaginava ser só um parágrafo introdutório acabou virando um post inteiro, e agora estou cansado para continuar. Fique valendo esse texto de segundo prólogo então, ou prefácio, se quiserem. Havendo gente que escreve livro até com quatro prefácios, acho que dois prólogos não vão mal.&lt;br /&gt; E declaro: estou pronto a apresentar nos próximos dias minhas meditações sobre os templos gregos, matéria do primeiro capítulo da série. Aguardem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-4893276369592501727?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/4893276369592501727/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=4893276369592501727&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/4893276369592501727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/4893276369592501727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/12/histria-concreta-da-arte-humana-2o.html' title='História Concreta da Arte Humana - Prólogo 2'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-4745445705517307905</id><published>2008-11-17T17:59:00.000-08:00</published><updated>2008-11-21T09:45:22.967-08:00</updated><title type='text'>Felicidade</title><content type='html'>&lt;meta equiv="CONTENT-TYPE" content="text/html; charset=utf-8"&gt;&lt;title&gt;&lt;/title&gt;&lt;meta name="GENERATOR" content="OpenOffice.org 2.2  (Win32)"&gt;&lt;meta name="AUTHOR" content="Victoria Saramago Pádua"&gt;&lt;meta name="CREATED" content="20081025;381800"&gt;&lt;meta name="CHANGEDBY" content="Victoria Saramago Pádua"&gt;&lt;meta name="CHANGED" content="20081117;23473103"&gt;&lt;style type="text/css"&gt; 	&lt;!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } 	--&gt; 	&lt;/style&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	Digamos que houvesse um casal deitado na cama. Quem eram não importa – não importa nem se eram de fato um par, ou se três, se quatro, cinco. Digamos que houvesse cinco pessoas deitadas na minha cama às oito da manhã: eram um casal de cinco, e o casal dormia às oito da manhã, aos primeiros raios de sol. O casal era um grande emaranhado de braços e pernas em meio às pontas dos lençóis. Pois foi isso que eu vi, exatamente – é o que há para ser visto no mundo, suspeito.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	O casal se comportava como quem se comporta após ter sono até cair. O casal dormia dum sono profundo e pesado – é o que há para ser feito no mundo, suspeito. Do suspiros de uma pessoa ao ronco de outra, dos olhos semi-abertos de um terceiro ao sorriso semi-fechado de um quarto, e o quinto corpo mexia muito levemente os dedos das mãos quando o primeiro que suspirava suspirava perto do seu rosto. Eram cinco ou seis, pois havia também um que de quando em quando acordava aos pequenos sustos para adormecer em seguida.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	Por cima da imobilidade toda dos poucos gestos e respirações, pelos corpos cobertos de lençóis e também de outros corpos e cabelos e suores, como que coroando a obra toda acumulada sobre os colchões e os travesseiros, incidiam de leve os raios de sol pelas frestas das cortinas. Os pelos do braço direito de um rapaz brilhavam, os olhos de uma mulher quase que abriam incomodados pela claridade. Pois eram já quase oito da manhã e ainda todos dormiam como se não houvesse nada mais que fazer nas manhãs, como se fosse isto o mundo.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	Uma mosca voava aos bocados por cima de um ombro, uma fileira de formigas se mobilizava ao redor de umas bolotas de açúcar caídas pelo chão junto aos pés da cama. Ninguém acordava. As poeiras da manhã brilhavam aos raios de sol, era muita a poeira.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	E eu me cansava por serem todos quase tão imóveis quanto eu, por agirem como se fora o mundo só isto o que eu fazia: nada. Por o sono avançar manhã adentro, é às vezes tão cansativa a imobilidade do sono, como a minha. Eu me entediava, por isso, e desejava bocejar e suspirar e roncar. Eu desejava ter dedos para mover de leve as suas pontas quando me batessem os raios de sol nas paredes, e desejava ter o calor do sol que os fazia a todos ainda suarem de leve apesar de tão imóveis, apesar do tanto de calor que faz um emaranhado de gente muito junta.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	Assim enquanto eu pensava uma pessoa acordou suave, pestanejou e delicada retirou uma a uma as mãos e as pernas e o queixo – uma pessoa soterrada de outras é sempre e tanto uma fonte de calor –, a pessoa suava e parecia feliz, os raios de sol agora pelos contornos das coxas e das pernas esticadas. A pessoa vestia uma calça e uma camisa, e uns chinelos e a bolsa ou carteira estava sobre uma poltrona, a pessoa abria a porta e saía das minhas paredes delicada como jamais entrara, e eu como que me comovia de ser às vezes tão doce alguém simplesmente se levantar para se vestir e sair em silêncio, como alguém se desembaraçar do emaranhado que era eu mesmo.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin-bottom: 0cm;"&gt;	Pois quando a pessoa se foi eu senti, e se pudesse suspirava, como suspiraram dois dos que restavam sobre a cama, como se moveram os outros dois ou três de leve, o emaranhado se reacomodando para perder dois braços e duas pernas e um queixo e mais tanta coisa. O emaranhado precisava aprender a viver sendo menos emaranhado, e eu os compreendia tão bem, como compreendia que uma mão puxasse uma ponta de lençol para cima de si, ou que um braço se abraçasse a uma outra barriga ou a um ombro. É que ninguém acordara, ninguém de fato se movera, e o sol continuava ali como as moscas, as formigas e as minhas paredes, mas em meio a isso tudo o corpo a menos fizera o conjunto menos quente, e esse pouco de calor retirado, todos nós inconscientes lhe sentimos a falta, e nos apertamos em nós mesmos.&lt;/p&gt; &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-4745445705517307905?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/4745445705517307905/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=4745445705517307905&amp;isPopup=true' title='8 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/4745445705517307905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/4745445705517307905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/11/felicidade.html' title='Felicidade'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-6818737597988240744</id><published>2008-10-19T19:20:00.000-07:00</published><updated>2008-10-19T19:21:15.093-07:00</updated><title type='text'>Prólogo</title><content type='html'>Hoje me apareceu por aqui uma mocinha diferente. Magrinha, pequenininha, cheia de sardinhas, o nariz arrebitado. Entrou de fininho como quem não quer incomodar, o queixo enfiado num cachecol cinzento, a testa coberta por uma boina cinzenta – quase que só lhe apareceriam as sardas e o nariz. Um tipo simpático, e dessa opinião compartilha comigo o rapaz que normalmente fica na recepção do hotel, pois fez questão de acompanhá-la até a porta do quarto para garantir ao menos uns quinze minutinhos de conversa com a donzela.&lt;br /&gt;Desde que veio trabalhar aqui, esse moleque eu o vejo uma média de duas a três vezes por ano. Creio que agora verei mais: a garota mora numa cidade da região serrana, mas vem fazer um curso de história da arte aqui no Rio semanalmente.&lt;br /&gt;- É um curso que eu queria fazer há tanto tempo, você nem tem idéia. O único problema é que é de noite, e acaba tão tarde. Sabe como é, fica muito difícil voltar para a minha cidade nesse horário.&lt;br /&gt;E por ser tão difícil voltar para a sua cidade nesse horário, a garota achou por bem dormir uma noite por semana num hotel aqui no Rio.&lt;br /&gt;- Por isso você reservou uma noite por semana até o fim do ano, então?&lt;br /&gt;Sim, a menina achou melhor fazer as reservas, só para garantir.&lt;br /&gt;- Mas o curso vai até metade do ano que vem. Se tudo der certo, mais tarde continuo fazendo a reserva.&lt;br /&gt;Os olhos do moleque juravam à mocinha que tudo daria certo, que ela poderia fazer tantas reservas quanto lhe agradasse.&lt;br /&gt;- Juro que, se você gostar desse quarto, dou um jeito de reservar ele sempre para você.&lt;br /&gt;Ela me examinou do chão ao teto e aprovou suavemente com a cabeça. A situação era fofa até a exaustão, e me deixava feliz a parte que me toca nessa história toda.&lt;br /&gt;O rapaz então me atravessou e abriu a janela.&lt;br /&gt;- Olha só, de longe ainda dá para ver um pouco do mar. Ouvir dizer que dava para ver o mar todo há décadas atrás, antes de fazerem o Aterro.&lt;br /&gt;A garota bem que se esforçava, afiava a vista, franzia as sobrancelhas, e no entanto não via nada além de prédios e árvores, a igreja ao fundo. Daí se virava para o menino delicada, a voz se sumindo dentro do cachecol.&lt;br /&gt;- Um dia eu vejo o mar. Mas gostei desse quarto, obrigada.&lt;br /&gt;Foi aí que o garoto sorriu como quem toma consciência a contragosto de estar bem no meio do serviço, a voz do dono do hotel berrando seu nome lá da recepção.&lt;br /&gt;- Eu tenho que ir... mas esse quarto é sempre seu, sempre que você quiser.&lt;br /&gt;Nisso saiu correndo e deixou a moça sozinha, a porta aberta e os braços finos agarrados nos livros de história da arte. Daí me ocorreu que, além de pequena e simpática, era uma pessoa cheia de idéias sobre a história da arte. Hesitei por um momento: fazia tanto tempo eu não pensava em arte.&lt;br /&gt;A garota também hesitou por uns momentos, até largar os livros sobre a cama para fechar a porta e começar a ter idéias. E eu gostava de idéias, como gostava da parte que me toca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-6818737597988240744?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/6818737597988240744/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=6818737597988240744&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6818737597988240744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6818737597988240744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/10/prlogo.html' title='Prólogo'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-3909231297958267455</id><published>2008-09-08T06:29:00.000-07:00</published><updated>2008-09-08T06:35:31.049-07:00</updated><title type='text'>Impedimento</title><content type='html'>Três travestis&lt;br /&gt;                                                                                                         Traçam perfis na praça.&lt;br /&gt;                                                                                                         Caetano Veloso, "Três travestis"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ok, agora se animem, que o papo é de sexo. Ou do que quer que se possa chamar o que hoje ocorreu. Porque dar os nomes aos bois é coisa que sempre depende do gosto do freguês.&lt;br /&gt;No caso da madrugada de ontem para hoje, o freguês era um desses que já eu – e você, e ele, e ela e todos nós – conhecemos tão bem: homem, 40 para 50 anos, barbudo, barriga de chope, cara de funcionário público, cara de casado com dois filhos, um do segundo casamento – e posso jurar que era mesmo isso tudo. Digam-me que estou exagerando na esteriotipação do sujeito, e logo vos provarei que estão errados. Pois quem acompanhava o herói-do-censo-comum-desde-os-anos-50 não era uma puta, nem uma noiva, nem uma secretária: eram três travestis.&lt;br /&gt;Os que lêem jornal ou vêem os noticiários ou fofocam por aí já fizeram todas as conexões que eu tenho em mente, não? Então prossigamos.&lt;br /&gt;- Quero ver dar o cu. – disse o primeiro traveco.&lt;br /&gt;- Quero ver dar o cu para mim. – suspirou o segundo.&lt;br /&gt;- Quero ver logo a cor da grana. – desafiou o terceiro.&lt;br /&gt;O homem, coitado, encarava os três embasbacado:&lt;br /&gt;- Dar o cu?!&lt;br /&gt;O segundo avançou de mansinho, com ar de noiva:&lt;br /&gt;- É, meu bem. Queria o quê? Ganhar a Copa do Mundo? - e se esfregava dengoso no chope da barriga.&lt;br /&gt;- N-não... - e dava um risinho sem graça.&lt;br /&gt;O terceiro traveco, como já deu para perceber, era o mais objetivo:&lt;br /&gt;- Olha aqui, freguês que chama a gente ou quer dar ou quer comer. Em que time você joga?&lt;br /&gt;E nisso pôs o pau para fora. O freguês tremeu na base. O primeiro traveco, até então quietinho no seu canto, pensou que não é assim que a banda toca; se tinha vontade de comer o cu do sujeito, precisava ir com jeitinho. Mas ficou quieto: é sempre preferível a lei do menor esforço, afinal.&lt;br /&gt;- Comer dá menos trabalho pra gente, sussurrou o segundo, já acarinhando as têmporas do freguês, no que o conduzia à cama – é gostoso, você vai ver. Nunca fez isso? - o freguês abanava a cabeça, botando os dentes para fora num sorriso – é show de bola, você vai ver.&lt;br /&gt;O primeiro acendeu um cigarro.&lt;br /&gt;- Esse daí não dá o cu nem chovendo canivete.&lt;br /&gt;Mas o segundo não perdia as esperanças:&lt;br /&gt;- Que nada, gostosa. É cada um que aparece, você sabe, cada um que a gente nem imagina.&lt;br /&gt;- Mas esse daí é tímido demais, coitado. Quero ver. Olha como treme.&lt;br /&gt;Os seis olhos se voltaram para a cama onde o sujeito se sentara. Arrependido, parece, tremia feito vara verde. Se me fosse dado ver os seus pensamentos, diria que estava prestes a botar uma nota de ciquenta na mão de cada um e pôr todo mundo para fora dali.&lt;br /&gt;- Então, meu bem – agora o primeiro resolvera investir. Largou o cigarro num cinzeiro e com ele todo o blasé. Convocou o terceiro, o segundo, os três se aproximando devagar. Alguém apagou a luz, o homem não percebeu quem. Tremia que tremia, coitado. Um se chegava aos poucos, lhe desabotoava a camisa. O outro beijava a nuca, os ombros. O outro se ocupava do meio-de-campo para baixo.&lt;br /&gt;Até que não faziam mal trabalho, eu bem sabia. Separadamente, já conhecera os três ao longo desses anos. Juntos é que não. Isso é para poucos.&lt;br /&gt;Um se chegou por trás do homem, era o segundo. Esse daí escasquetou que só sai com o cu do freguês comido, pensou o primeiro, o ex-blasé. E lhe deu ânsias de acender outro cigarro. Mas agora não, agora não, completou de si para si.&lt;br /&gt;O freguês, já deitado e percebendo o segundo traveco prestes a dar o bote – mas prestes mesmo, tudo preparado, quase lá –, o freguês se encrispou todo. Isso que não, pensou provavelmente.&lt;br /&gt;- Agora não, acho melhor não. – sussurrou ao ouvido do segundo.&lt;br /&gt;- Por que não, amor? Está feliz com a gente não?&lt;br /&gt;- Agora não, repetiu indeciso.&lt;br /&gt;O segundo não se fazia de rogado:&lt;br /&gt;- Se você quer ser igual a ele, tem que fazer igual a ele.&lt;br /&gt;Isso é que não, reiterou para si. É demais.&lt;br /&gt;- Vou ao banheiro.&lt;br /&gt;Libertou-se então das seis mãos e os seis olhos e os três paus a se lhe esfregarem. É demais, concluiu.&lt;br /&gt;O primeiro acendeu outro cigarro.&lt;br /&gt;- É o show do intervalo.&lt;br /&gt;- Já vi tudo – observou o terceiro, o objetivo – esse show não tem prorrogação nem a pau.&lt;br /&gt;- Nem sem ele – completou o primeiro. Às vezes acontece de os blasés serem espirituosos.&lt;br /&gt;Daí aparece o freguês. Uma nota de cinquenta na mão de cada um:&lt;br /&gt;- Desculpa, eu me enganei. Cansei. Vou embora. Fica aí o preço, a gente combinou.&lt;br /&gt;E saiu correndo esbaforido, as tralhas todas caindo pelas mãos.&lt;br /&gt;Os travecos já conheciam esse tipo, nem se deram o trabalho de ir atrás.&lt;br /&gt;- Metade do tempo, metade da grana – resmungou o objetivo.&lt;br /&gt;- É... - o blasé estava pras filosofias – quem pode pode, quem não pode se sacode. - E apagou o cigarro. - Quer aparecer no jornal, tem de saber fazer o gol. - E nisso não deixava de transparecer um quê de autocrítica.&lt;br /&gt;O segundo não disse nada. Enrolava os cachos nos dedos, pensativo, num eterno ar de noiva.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-3909231297958267455?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/3909231297958267455/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=3909231297958267455&amp;isPopup=true' title='10 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/3909231297958267455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/3909231297958267455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/09/impedimento.html' title='Impedimento'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-8349708979458964209</id><published>2008-08-08T19:07:00.000-07:00</published><updated>2008-08-08T19:11:45.025-07:00</updated><title type='text'>O eco do espelho</title><content type='html'>Detesto espelhos. É sério: os espelhos não sabem de nada. O espelhos não sabem viver. O que quer que se lhes ponha na frente, é o que passa a toque de caixa. Superficialidade até não se poder mais. É um reflexo que vem, um reflexo que vai, e assim está muito bem para eles.&lt;br /&gt;Mas um reflexo é muito pouco. Jamais um espelho saberá chegar ao âmago das coisas. Jamais um espelho saberá pouco mais do que seja um sopro – um sopro, e é tão pouco. É como aquilo que entra por um ouvido e sai pelo outro, transitório, uma imagem.&lt;br /&gt;Eu sei bem do que falo, não duvidem. Já tive tantos espelhos quanto tenho décadas de existência. E digo que um espelho é capaz de passar anos e anos a fio dentro de você, te reproduzindo as paredes e as fissuras e os habitantes e as trovoadas, sim, muitos anos, e ao ser removido sai como se nada soubesse de ti. Porque os espelhos têm a memória fraca dos seus reflexos: as coisas vão, os reflexos vão, e nada nos resta.&lt;br /&gt;A mim é bem diferente. Porque me habitam. Porque quando uma pessoa entra em mim eu a encarno e ela é a minha alma. É muito mais que um reflexo, infinitamente mais. Eu sou a pessoa que venha a me habitar; ela me preenche os vazios numa tal escala que qualquer dos seus movimentos me atordoa, me reverbera para sempre. Expiração, inspiração, é o que me basta a sacudir as partículas todas – e aqui eu queria ter humor o suficiente para supor que me sacodem o esqueleto as movimentações dos meus transeuntes.&lt;br /&gt;Um habitante que habite não é um reflexo que passa. Como tampouco o seria um espelho que me habitasse – mas aí já é outra história. O fato é que tudo o que me acontece dentro da área que cobrem as minhas paredes e o meu teto e o meu chão, tudo o que se passa no meu interior passa como se me passasse por dentro das entranhas, pelo fígado, pelos pulmões, como se me pegasse à carne, uma sujeira interna. A aflição de um alguém que me habite é cortante como um soco no estômago – pois é precisamente um soco no estômago, se é que vocês me entendem.&lt;br /&gt;Espelhos não têm estômagos. Eu tenho. Meu estômago é mais que um reflexo no vidro, é aquilo que revolve por dentro, é bem o ser e ser e ser, nada menos. Meu estômago é o que digere as palavras e as correntes de ar.&lt;br /&gt;Os espelhos não digerem nada, não apreendem nada. O que vem vai do jeito que veio. São reflexos apenas. Detesto espelhos. Não reflito, encarno. E é tão mais o que me dá, que chego a encarnar os reflexos dos espelhos que me habitaram pelas décadas: são os ecos, as palavras não assimiladas que ficaram pairando – essas mesmas que agora vos dirijo. Porque há uma parcela de sons emitidos que ficam por aí, e deles nada posso fazer senão refleti-los, passá-los adiante. Não me culpem, não olhem torto: é o único jeito de me ver livre, de arejar. Pois que me incomodam, pegam-se a mim como sujeira, por poucos que sejam. Dessas palavras eu não assumo a responsabilidade, não vale a pena. Passo-as adiante, deixo-as a vocês. Aceitem-nas, é o mínimo.&lt;br /&gt;E é tão pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse palavrório todo me lembrou até da Clarice, e com ela dum joguinho bolado faz uns anos por alguém que um dia me habitou. Era uma declaração de amor, uma declaração lispectoreana, e era assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou uma pergunta? - pergunto.&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Então você já deu a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois então. That's all, folks.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-8349708979458964209?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/8349708979458964209/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=8349708979458964209&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8349708979458964209'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8349708979458964209'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/08/o-eco-do-espelho.html' title='O eco do espelho'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-2465988350638914004</id><published>2008-07-01T06:32:00.001-07:00</published><updated>2008-07-01T06:33:51.126-07:00</updated><title type='text'>A espera</title><content type='html'>Começo este post com um segredo. Nem se animem, que não é nada de sexo. Continuo hoje com seu compadre de mito e de Freud, a morte.&lt;br /&gt;Não sei se já contei que houve um período eu e todo o edifício estávamos prestes a desabar, tal era o estado de abandono em que nos meteram. Foi lá pelo fim dos 70/ início dos 80. Não havia dono, não havia manutenção, não havia nada. Minha vida estava literalmente num estado de ruína, os dias passavam uns depois dos outros e eu me perguntava quando minhas paredes haviam de afundar de vez nesse submundo que é o chão do primeiro andar.&lt;br /&gt;Dessa época falo pouco, na verdade me lembro muito pouco. Não porque me desagrade dela – quando se é imóvel, qualquer novidade que nos apareça é válida –, mas porque não há muito que lembrar mesmo. Poucas pessoas por aqui passaram, logo poucas palavras foram ditas, logo poucos são os ecos que aqui ressoam. Mas há uns casos interessantes.&lt;br /&gt;Um deles foi o de dois mendigos que me ocuparam por cerca de uma semana. Nem sei como tiveram a coragem de subir ao segundo andar – parece-me que os mendigos estão sempre dispostos a tudo. Sobre eles não digo muito, que não é o que me interessa agora, mas digo isto: houve uma noite em que falaram de morte.&lt;br /&gt;O primeiro virou e começou uma história:&lt;br /&gt;- Foi o que eu ouvi daquele sujeito, que era assim mesmo. O problema daquela cidade era o de não ter nunca ninguém morrido nela. Era nova demais recém-fundada, sem mortos, sem cemitérios. Daí não podia ter fantasmas, óbvio. Nem os da própria cidade, nem os forasteiros. São os mortos que chamam os outros mortos. Daí que, não tendo ninguém esticado as canelas para chamar as outras almas, não havia também almas que fossem puxar as canelas aos vivos pelas madrugadas. Foi isso que o sujeito me contou, sem tirar nem pôr, entende?&lt;br /&gt;O outro mendigo não respondia nada, mais entretido que estava em abrir uma lata de ervilhas com uma tesoura de unha. O primeiro, sem se incomodar da desatenção, prosseguiu:&lt;br /&gt;- Esse que me contou a história afirmava ter medo de um certo homem que assassinara anos atrás, cujo fantasma não o achava de jeito nenhum. É que ele se mandou para cidade nova – ou melhor, ele mesmo fundou cidade nova. Daí foi só quando alguém morreu nessa cidade e o cemitério foi construído, só aí que um defunto chamou o outro, e estava feita a desgraça do pobre do vivo: o fantasma do homem que ele assassinara o encontrou e nunca mais lhe deu descanso.&lt;br /&gt;A narrativa é meio truncada, admito, e talvez por isso mesmo a lata de ervilhas tenha parecido tão mais interessante, mas foi mais ou menos assim. O que me ficou desse episódio, no fim das contas, foi uma certeza: é preciso alguém morrer na gente para que os outros fantasmas nos encontrem, nos habitem. Que um fantasma chame o outro nessa rede invisível até para mim, que um abra a porta ao outro, e nessa troca de gentilezas é questão de tempo até me aparecer o meu próprio fantasma, único e particular, a minha alma superposta.&lt;br /&gt;Por isso meus tijolos sorriram quando Inocência morreu. Ela foi a primeira, ela que chame os outros, a minha porta está aberta. Quem sabe, quem sabe. Um ano já se passou e nenhum espírito me veio abordar, mas tenho esperança. Se fosse mulher pintava as unhas, se fosse homem comprava um carro novo. Se fosse leitor botava um anúncio no jornal, se fosse crente rezava a Santo Antônio.&lt;br /&gt;Sendo quarto, espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                              ***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás e a propósito, fiquem de olho e se puderem confiram “A espera”, novo curta-metragem de Fernanda Teixeira, que já foi a Cannes e agora anda circulando por mostras e eventos pela cidade. Se não me falha a memória, é o primeiro filme de sua nova produtora, a Buendía Filmes. É minha sugestão cinematográfica para o mês.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-2465988350638914004?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/2465988350638914004/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=2465988350638914004&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2465988350638914004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2465988350638914004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/07/espera.html' title='A espera'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-5117517523575620279</id><published>2008-06-07T11:39:00.000-07:00</published><updated>2008-06-07T11:40:37.804-07:00</updated><title type='text'>À maneira de um soluço</title><content type='html'>Tinha esquecido de dizer que a mulher parece que morreu. Não sei bem: tudo estava como sempre nessas últimas semanas, eu já sem falar nada a ninguém por me dar era um tédio apertado no coração que não tenho, os dias passavam um depois do outro e o menino brincava e fazia perguntas, o homem chorava pela manhã, e era o suficiente. Não procurei saber mais, não me interessou entrar na intimidade dos dois coitados mais do que o bastante para me manter longe do ranço de morte que traziam.&lt;br /&gt;Depois de Inocência deixei de ser imune à morte: comovo-me. Nunca antes ninguém morrera em mim, e confesso, não soube lidar com a situação. É curioso: a pessoa respira em você e por você, e faz a barulheira de que jamais você será capaz, a pessoa traz para dentro de você o calor de carne que jamais os seus tijolos não atingirão – e os meus tijolos acho que sempre foram especialmente frios –, até que de repente cessa isso tudo, o silêncio volta, o cadáver não esquenta mais que os lençóis da cama, nem movimenta o ar com mais alma do que a brisa que me entra pelas janelas.&lt;br /&gt;Eu sempre me ressenti de não saber pôr o ar em movimento.&lt;br /&gt;Eu tenho um silêncio de tumba, parece-me. E me falta um fantasma, é só o que repito. Júlia se foi antes de eu pensar nisso, Inocência foi removida sem me deixar marcas, não resta mais ninguém.&lt;br /&gt;Um fantasma silencioso e frio como eu, sem respirações e tagarelices. Um que se postasse sentado sobre o parapeito e me observasse o interior, os olhos encovados e as pontas dos dedos ossudas, transpassado pelos raios de sol que se insinuassem pela vidraças. Um fantasma de quem eu pudesse dizer: este eu sou. Não é alma gêmea, como já ouvi dizerem, é alma justaposta. Com todos os móveis que abrigo, ainda me sobra espaço para isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-5117517523575620279?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/5117517523575620279/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=5117517523575620279&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/5117517523575620279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/5117517523575620279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/06/maneira-de-um-soluo.html' title='À maneira de um soluço'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-5042476638075136615</id><published>2008-05-11T16:54:00.001-07:00</published><updated>2008-05-11T16:55:25.263-07:00</updated><title type='text'>O menino é pai do homem</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Hoje ouvi alguma conversa entre as arrumadeiras sobre ser um dia das mães ou algo do gênero. O que até certo ponto, nas condições dos meus hóspedes atuais, não deixa de ser minimamente curioso. E não me sai dos tijolos aquela certa frase que eu ouvira há tempos, “o menino é pai do homem”.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Pois são um homem e um menino. E chegaram há coisa de 3 dias no Rio, sabe-se lá até quando ficarão. Talvez não seja muito, infelizmente: se não ficarem, terá sido por causa de morte. Ninguém é pai do destino.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;A morte em questão é a da mulher, a esposa do homem e mãe do menino. Doente, pelo que percebi, e gravíssima, agonizante. Chegaram os três de alguma cidade do interior que não me recorda o nome, a moça direto para o hospital, o menino direto para o hotel, o homem vagando entre ambos, sem solução à vista, na ânsia de se desdobrar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Hoje de manhã peguei-o às lágrimas, ainda antes de se levantar, no que telefonava ao hospital, o filho na respiração leve das crianças que dormem. Não era justo terem um filho. O homem perguntava da moça aos atendentes do hospital o que podia e o que não podia, os olhos agora secos, o menino dormindo. Era cedo demais. Ou tarde, tive a impressão de tê-lo ouvido murmurar: a gente tem de descobrir as coisas antes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Fato é que o garoto acorda e o homem sorri. O garoto se faz de soldado mas afirma não querer ir para a guerra; o homem sorri; a mulher não está lá. O homem pergunta ao garoto o que faria se o obrigassem à guerra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Eu fugia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Mas você não é soldado?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Se eu tivesse de ir eu ia, e ia aprender a gostar, e ia a aprender a matar e a gostar de matar. Mas eu pego um navio e fujo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- E faz o que com o navio?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Não sei.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Calam-se ambos e é um pena a ausência da mulher, vejo nas sobrancelhas do homem, vejo nos golpes imaginários do menino com os cabides nas mãos. Seria tarde demais para pegar um táxi e acordá-la ao hospital? Haviam de fazer uma bela surpresa, quem sabe.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;E no entanto era cedo. O café da manhã não começara a ser servido; o telefone tocou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Vamos – disse o pai – deixa de guerra. Sua mãe quer te ver.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Eu sou um guerreiro teórico, pai.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O garoto tinha algo como quatro anos, não havia de saber que era a teoria, de que diabos a teoria poderia lhe valer. Mas acrescentou:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- Se eu tiver de matar eu mato. Mas eu não quero.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;O homem chorou e o menino não viu: a questão era mesmo de morte, a gente não sabia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;- A gente tem de descobrir as coisas antes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Saíram os dois correndo, o táxi à porta buzinando. A mulher ao fim das contas não apareceu na história, não importa. Pergunto-me se ainda estará viva a essa hora. O menino é pai do homem, eu me dizia quieto, no que pensava ser ainda o dia das mães – só o pensaria mais tarde, pelo meio da manhã, estando os dois hóspedes substituídos pelas arrumadeiras no palco que sou eu mesmo. Que servisse essa história toda de homenagem à maternidade, pensei então, ao menos aos olhos dos outros, se assim cabe tão bem. Pois é tudo o que está ao meu alcance fazer.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-5042476638075136615?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/5042476638075136615/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=5042476638075136615&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/5042476638075136615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/5042476638075136615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/05/o-menino-pai-do-homem.html' title='O menino é pai do homem'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-6280811849274836558</id><published>2008-05-03T12:51:00.000-07:00</published><updated>2008-05-03T12:53:33.805-07:00</updated><title type='text'>Aquele que tem duas asas</title><content type='html'>Contito novo no pedaço: "Díptero" (ou, segundo meu humilde ponto de vista, "O conto dos fantasmas que nos faltam").&lt;br /&gt;Confiram: &lt;a href="http://www.mariajoaquina.org/.145.html"&gt;http://www.mariajoaquina.org/.145.html&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-6280811849274836558?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/6280811849274836558/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=6280811849274836558&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6280811849274836558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6280811849274836558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/05/aquele-que-tem-duas-asas.html' title='Aquele que tem duas asas'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-3104557876152896966</id><published>2008-04-30T12:20:00.000-07:00</published><updated>2008-04-30T12:35:07.792-07:00</updated><title type='text'>Outros ares</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Às vezes entra vento em mim, às vezes sopro palavras de outros ares. É o que acontece agora, bem vejo, e já não sei se é de outro quarto, outro prédio, outro blog, outro mundo. Sei que hoje tenho intervenção de fora, e o vento de hoje atende pelo nome de Ronaldo Brito Roque, um amigo das letras com um romance no prelo - o nome ainda não me sopraram, mas a editora é a Confraria do Vento. Pois hoje a canja é de Ronaldo. Aí vai ela:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Hoje eles não ficam muito tempo dentro de mim. Chegam de noitinha ou de madrugada, tiram as roupas, tomam seus banhos demorados, às vezes secam o cabelo, às vezes apenas caem na cama e dormem um sono mudo e sem sonhos. No dia seguinte acordam com um telefonema da portaria e saem apressados, alguns ansiosos para voltar a suas casas e famílias, outros lamentando não poderem prolongar esses raros momentos de solidão, quando se vêem livres das reclamações da mulher, da televisão alta e das discussões intermináveis dos jovens.&lt;br /&gt;    Se eu não tivesse pertencido a uma casa, se eu mesmo não tivesse acompanhado a queda dos primeiros dentes, as primeira rugas, o escassear dos cabelos, talvez acreditasse que a diferença de idade fosse mera diferença física, como a cor da pele, a altura e o sexo. Os homens teriam dezoito ou sessenta anos como têm nariz grande ou pequeno, cabelos loiros e escorridos ou castanhos e encaracolados. Seus rostos enrugados ou lisos, suas orelhas enormes ou pequeninas seriam mais um detalhe biológico que eles deveriam a um dos pais ou a algum ancestral mais antigo. Mas eu pertenci a uma casa, eu vi crianças perderem seus dentes e garotas ganharem seios e ancas redondas e felizes. Vi homens passando as mãos nos cabelos e reclamando de sua queda rápida e impiedosa. Vi mulheres chocadas com a mudança de seus corpos depois da primeira gravidez. Assim aprendi que alguns traços se devem à ação do tempo e que os homens todos primeiro são crianças lindas e vivas e só depois vão se encurvando e perdendo a dignidade. É certamente por isso que nunca os invejei, esses macacos pelados e falantes. Eles se agitam como moscas, olham para seus relógios e reclamam do tempo e da vida, sempre procurando alguém, às vezes até um deus, para culpar por sua paixão e seu tormento inútil. Cada vez que um deles blasfema dentro de mim, eu me regozijo em ser tijolos e cimento, indiferente às oscilações do câmbio, ao preço dos aluguéis e aos humores femininos. É delicioso durar mais que uma vida humana e ver o quanto ela tem de decadente e estéril. É gratificante permanecer em silêncio enquanto os homens agitam suas vozes em torno das coisas inconsistentes, seus governos e mandos, sua natureza pútrida, seus deuses plurais e conflitantes.&lt;br /&gt;     Contudo houve um breve tempo em que mirei com certa compaixão essas feras falantes. Não digo que os invejei, não digo — deus me livre! — que cheguei ao ponto de querer ser um deles. Mas não nego que senti certa alegria em ser parte do seu mundo, em abrigar olhos que transbordavam ternura e corpos que exalavam o suor feliz e confiante do amor — é claro que estou falando de um casal. Eles vinham quase todo fim de semana, intuí que moravam aqui perto e precisavam de espaço para a recém descoberta intimidade. Ela se despia de pressa e um pouco nervosa, senti que ainda não sabia como realizar aquele ato com a naturalidade e a elegância que cabem às autênticas princesas. Mas o rapaz não se apressava em contemplar e tocar seu corpo. Ele já sabia da sacralidade do toque, do cheiro, do sabor marinho e acanelado que o amor infunde no corpo da mulher. Aos poucos ela se entregava confiante, num êxtase profundo e sereno como deve ser a entrega dos pássaros à sabedoria do vento. Depois eles permaneciam abraçados, exaustos, e seus corpos se encaixavam com a precisão e delicadeza das partes que querem se tornar um todo. A aura que pairava dentro e acima dos dois, serena e viva como uma oração, ficava ainda algum tempo no quarto depois que eles saíam. O perfume dela impregnava as paredes, brindava os próximos hóspedes e também a mim mesmo, que sinto os perfumes pelo tato, como quem sente a carícia suave do vento.&lt;br /&gt;     Às vezes ela começava a se vestir, e ele a puxava de volta para a cama, implorando um pouco mais do silêncio quente e pulsante da sua nudez. E esse segundo encontro era mais sereno, como a maré da minguante, e os dois se olhavam nos olhos e sussuravam as palavras que separavam definitivamente aquele evento do resto do mundo. Eles não tinham como saber que eu os percebia — sou muito raro entre os meus — e se acreditavam sem nenhuma testemunha, a não ser os seus próprios olhos e ouvidos; suas mãos e bocas; e as lembranças que ecoariam depois, nos seus sonhos, nos seus minutos de mudez, no banho ou num canto qualquer sem telefone. Nesses momentos eu parava de perceber o tempo, mesmo o meu, que se arrasta com muito mais vagar, e acreditava vislumbrar um prenúncio confiável disso que vocês chamam de eternidade. Eu sabia que aquele momento existiria novamente, se não no meu interior, pelo menos dentro dos corpos que arfavam e se consumiam ali mais uma vez, dentro de algum mistério que era mais consistente e durável que eles mesmos.&lt;br /&gt;     E talvez tenha sido essa a minha fraqueza: acreditar que a eternidade coubesse em algo tão menor e mais breve que ela. Nas semanas seguintes, eu perceberia uma eternidade inteiramente fiel a si mesma, e completamente indiferente ao meu amor recém descoberto pelos homens. Ele entrou sozinho, ficou sentado na cama, fumando, depois se despiu e se esfregou no lençol, como se procurasse alguma coisa entre seu corpo e o espaço vazio que pairava acima da cama. No espelho do banheiro, ele roçava a própria pele, buscando por algo de que a pele se lembrava, mas não podia reproduzir. Deitado na cama, ele fazia perguntas silenciosas ao teto. Não chorava como ela, não batia a porta quando saía, não parecia desesperado, apenas triste. A garota é que parecia pior, com seu choro soluçado e suas blasfêmias. Ela via suas lágrimas e muita culpa no espelho. Não chegava a se despir, e também não fumava, o que talvez fosse pior, pois seu corpo desocupado relembrava com mais precisão o toque dele. E os dois cultivaram por algum tempo esse sofrimento inútil e programado. Vinham sozinhos ao quarto, tentavam inutilmente reviver um segundo da alegria sincera, da ternura sublime que viveram ali dentro. Conseguiam apenas a indiferença muda e altiva das minhas paredes — mas acreditem: isso era à minha revelia. Se houve um tempo em que quis adentrar o mundo dos humanos, se alguma vez eu desejei vibrar o ar com a potência e a clareza de uma voz, foi nesses dias em que eles vinham sozinhos buscar o conforto inútil de uma explicação. É claro que eu não explicaria nada, apenas diria a verdade, que já estava no mesmo espaço em que os dois, precisando apenas encontrar o mesmo tempo. Se ele soubesse que ela também voltava a mim e chorava a ausência do seu riso... Se ela soubesse que ele enfumaçava minhas paredes maldizendo a falta do seu perfume... Ah, se eu tivesse uma voz, se eu pudesse revelar a urgência dos pensamentos que ecoavam mudos nessas paredes, eu apenas mandaria que cessassem aquela dor mesquinha e encontrassem para além da fugacidade do rancor a longevidade segura do perdão. Eu adivinhava as acusações amargas que eles não confessavam às minhas paredes. Ele talvez tivesse freqüentado outros quartos, com amores menos belos e mais baratos. Ela, quem sabe se encantara um momento por algum rapaz mais altivo e rico, que lhe acenara com a possibilidade de hotéis mais caros e próximos do mar. Depois tudo era arrependimento. Os quartos mais baratos, afinal, não valiam o mísero dinheiro que custavam. E o rapaz altivo podia mesmo pagar hotéis melhores, mas não despertava nela a alegria terna e segura do seu amor plebeu. Mas os dois não ousaram falar sobre seu arrependimento, e eu, que talvez pudesse uni-los com a denúncia, permaneci trancado no meu silêncio impotente, esse mesmo silêncio que fora meu orgulho e era agora meu limite e meu destino.&lt;br /&gt;     E hoje os homens continuam a me habitar brevemente e a falar em seus celulares e a se agitar como moscas em torno das coisas que apodrecem. Confirmo que não os invejo, mas já não encontro no meu silêncio a paz convicta que antes encontrava. Miro a eternidade com certa desconfiança. Sei que vislumbrei algo maior e mais intenso que ela, embora mais breve, e desejei por um instante algo que ela não me concedia. Esse momento de revolta bastou para me jogar dentro do tempo, e agora conheço o desgosto inútil dos insatisfeitos. Os dois já não vêm mais aqui. Não duvido que tenham cedido facilmente ao esquecimento, essa pequena morte antes da morte definitiva. E eu, que conheci o tempo e seu limite, só me resta agora esperar também por algum tipo de morte, algo que me livre dos limites do tempo que, graças ao que havia de eterno naqueles dois, eu pude descobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ronaldo Brito Roque 23/Abr/2008 - Dia de São Jorge&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-3104557876152896966?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/3104557876152896966/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=3104557876152896966&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/3104557876152896966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/3104557876152896966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/04/outros-ares.html' title='Outros ares'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-9012263153099761722</id><published>2008-04-15T18:54:00.000-07:00</published><updated>2008-04-15T19:17:40.721-07:00</updated><title type='text'>Coisas grandes</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Como o movimento por aqui está muito pouco e quase nada tenho tido a fazer, ando desencavando uns ditos que me ficaram reverberando suavemente por décadas e décadas. Outro dia, por exemplo, lembrei duma grande frase:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;“Um grande homem sem religião não é nada mais que uma grande fera sem alma.”*&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Se fosse humano até que me dava uma vontade de arranjar religião, só para bater palmas incondicionais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Sendo quarto, no entanto, só me resta emendar assim:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;“Um grande homem sem religião não é nada mais que um grande quarto de hotel sem hóspedes.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;E aqui eu só posso ficar feliz de pertencer a um casarão do início do século, e de serem os casarões do início do século tão largos e espaçosos. Ao menos na generosidade dos meus metros quadrados, não fico devendo nada nem ao homem nem à fera.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;* Daniel Defoe&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-9012263153099761722?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/9012263153099761722/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=9012263153099761722&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/9012263153099761722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/9012263153099761722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/04/coisas-grandes.html' title='Coisas grandes'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-8411145082361528799</id><published>2008-04-08T12:40:00.000-07:00</published><updated>2008-04-08T16:28:05.933-07:00</updated><title type='text'>Um ano não faz mal, um par de séculos tampouco</title><content type='html'>Estive algum tempo ausente, é verdade. Mais de um ano, para ser bem exato. De 16 de fevereiro a 8 de abril bem que me pareceria um bom tempo, e a todos nós, que vivemos em escala humana. Mas eu, ora bolas, eu não sou humano. Em que pese ser eu produto dos homens, e ainda pelas mesmas mãos dos mesmos homens hei de ruir – vocês ainda verão – mas diga-se tudo isso; eu permaneço cimento. Cimento dura mais que peles e ossos, graças a Deus e aos tijolos que nos sustentam. Por isso, um ano para quem já faz quase um século é coisa pouca, e para mim não durou mais do que o vazio de um meio de semana sem hóspedes.&lt;br /&gt;Ah, os humanos. São engraçados. Estive pensando neles nos últimos tempos – como se tivesse ralmente algo mais em que pensar. Os humanos dão caras a tudo: um ano a eles, uma década que seja – e vamos medir aqui em décadas –, tudo nas suas características peculiares, como se humanos fossem os anos que passam. Como se as décadas se fantasiassem com o mesmo apuro dos nossos carnavalescos.&lt;br /&gt;Andei pensando nisso, com efeito. Andei pensando se ainda resisto a mais um século, se ainda vejo os próximos anos 20, 30, 50, 80 e por aí vai. Se serão as décadas do século XXI exatamente as mesmas com que teimamos em rotular as do XX. Porque seria gozado se os próximos anos 40, sem guerras e nazismos, fossem de uma paz e uma tolerância aterradoras. Ou que os 60, sem os desbundes e protestos que andaram chegando por aqui, conhecessem, ao contrário, os jovens mais fresquinhos e conservadores de que se teve notícia. Ou que os 90 e 00 que por aí virão não tivessem nada de nada de tecnologias e internets e celulares, que a informação não se transmitisse de jeito nenhum, e qualquer hi-tech soasse tão paradoxal quanto a escravidão na democracia grega. Porque essas coisas acontecem.&lt;br /&gt;Como se lêssemos um livro de história ao contrário, assim talvez o leiam as crianças do século XXII. Se é que haverá necessidade de ler alguma coisa, se é que já não teremos laptops instalados no cérebro.&lt;br /&gt;E nisso passam-se os anos. Logo chegaremos ao fim da década de 2010, e em lugar da Revolução Socialista, que haverá? A Belle Époque, se é que já veio, eu ao menos não senti. É bom já ir pensando nessas questões: não falta muito a que o século próximo as engula. Já eu, se eu me mantenho de pé até lá, ainda acharei divertido de comparar. Dois séculos de vida para um quarto não vão nada mal: é o suficiente para demolir qualquer certeza.&lt;br /&gt;Mas não reparem, é tudo coisa de quem tem tempo demais e miolos de menos. É coisa de quem vê passar diariamente por si os seres humanos mais variados em seus caprichos mais íntimos, carnavalescos como passam os meses e os anos nos nossos calendários.&lt;br /&gt;Ao menos, viva o quanto viver, veja o que há de supreendente para ser visto, ao menos uma certeza me resta, e quero ser um mico de circo se não será verdade: que os anos 80 jamais saberão se vestir com bom gosto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-8411145082361528799?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/8411145082361528799/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=8411145082361528799&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8411145082361528799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8411145082361528799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2008/04/um-ano-no-faz-mal-um-par-de-sculos.html' title='Um ano não faz mal, um par de séculos tampouco'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-8007930704598632079</id><published>2007-02-16T17:28:00.000-08:00</published><updated>2007-02-16T17:29:53.767-08:00</updated><title type='text'>Frans dá as caras</title><content type='html'>obs: Para entender melhor a história, é útil ler desde o post intitulado "As cabeças nas nuvens".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Frans! Você veio, filho da puta! – e Rosa quase que deixara caírem o balde e a vassoura no espanto quando, me adentrando, encontrara aquele sujeito deitado na minha cama rindo num arzinho de canalha, no colo a caixinha aberta com os diamantes reluzindo ao sol e no chão os tacos removidos para fora dos lugares. – Bem que eu vi que era você entrando aqui hoje de manhã, você mesmo. Filho da puta.&lt;br /&gt;Frans continuava com os dentes de ouro reluzindo ao sol. Desde o início eu soubera que só podia esperar dele as maiores trambicagens. Tem gente que não engana.&lt;br /&gt;- Cheguei, minha flor, cheguei. – agora, de pé, chegava-se à Rosa, uma mão se enroscando na cintura dela e na outra a caixinha bem segura. – Precisava de vir te visitar nalgum momento, né? – e lhe tascando um beijo na nuca que ela oferecia – Minha florzinha devia estar com saudade.&lt;br /&gt;A Rosa era muito esperta, eu não duvidava.&lt;br /&gt;- Saudade de você eu vou ficar só depois, querido. – e afastou-se num meio-sorriso, como quem devesse ter muito trabalho a fazer. – E esse teu tesouro aí na tua mão, veio de onde?&lt;br /&gt;- De onde mais, meu bem?&lt;br /&gt;- Sei lá, você sabe que eu não acompanho o que acontece na vida do Helmut.&lt;br /&gt;- Pois devia era saber. O cara é um tapado, foi feito pra ser passado para trás.&lt;br /&gt;- Então foi mesmo do Helmut que você surrupiou as pedrinhas.&lt;br /&gt;- Claro! Ele parece que pede para ser roubado, não tem honestidade que resista.&lt;br /&gt;- Você era empregado dele. Devia ser mais leal.&lt;br /&gt;- E você era a minha garota. Quer que eu seja leal também para você, minha flor?&lt;br /&gt;Rosa se esquivava e sorria:&lt;br /&gt;- Já basta a Inocência, não?&lt;br /&gt;Frans suspirava:&lt;br /&gt;- Você é uma flor, mas a Inocência é um anjo. Só ela para fazer isso tudo por mim, para bolar tudo, essa história de esconder a caixinha nos tacos soltos. Genial.&lt;br /&gt;- E eu tinha falado que dava cobertura para vocês, era só vocês virem para cá.&lt;br /&gt;- Queria é saber por onde ela anda agora. A gente acabou se desencontrando, ela sumiu. Tomara que não tenha dado nenhuma merda. Você sabe como ela era, com aqueles instintos suicidas. Uma louca.&lt;br /&gt;Só eu reparei na brusca alteração de voz da Rosa, na sua postura quase constrangida. Frans não tinha acuidade para esse tipo de sutileza.&lt;br /&gt;- Não soube nada dela?&lt;br /&gt;- Não, nada. Me deixou esses diamantes para pegar aqui e sumiu no mundo.&lt;br /&gt;- Também não a vi. Pelo visto esteve aqui justo quando eu estava de férias.&lt;br /&gt;- Tava de férias, é? – seu rosto se despreocupou novamente. – Bem que eu tinha reparado no teu bronzeado novo, florzinha. – e no que dizia afastava levemente a gola do uniforme e a alça do sutiã, o dedo deslizando pela marca do biquíni.&lt;br /&gt;- Andei mesmo precisando relaxar. Fui pruma praia linda, depois te conto. E vocês aqui, se matando para roubar o coitado do velho, a Inocência que deve ter passado por esse quarto num piscar de olhos nesse último mês só para te deixar essa surpresinha e você por aí, fugindo.&lt;br /&gt;- Fugindo não. Resolvendo uns negócios, viu, querida? Umas coisas importantes, não dava para adiar.&lt;br /&gt;Frans tinha um riso rouco e me dava raiva da complacência com que Rosa se deixava beijar, na cara de falso prazer enquanto Frans lhe passava a mão na bunda e o seu olhar de canalha com tesão que reluzia ao sol, os diamantes ainda bem seguros na outra mão.&lt;br /&gt;- Acho que ainda acabo tendo saudade de você. – ela falava acariciando-lhe o rosto de leve, como quem pensa que seria muito bom mas que não, que era melhor parar por ali. E afastando-se: Vai embora amanhã de manhã, meu bem, e com os diamantes. Te dou cobertura, você vai ver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-8007930704598632079?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/8007930704598632079/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=8007930704598632079&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8007930704598632079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/8007930704598632079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2007/02/frans-d-as-caras.html' title='Frans dá as caras'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-1984703689843703421</id><published>2007-01-30T18:40:00.000-08:00</published><updated>2007-01-30T18:41:32.165-08:00</updated><title type='text'>A caixinha de metal</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;obs: Para entender melhor a história, é útil ler desde o post intitulado "As cabeças nas nuvens".&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;As palavras que eu já ouvi nessas tantas e tantas décadas de existência, não duvido, caberiam numa quantidade incontável de cadernos. Me admira por isso que tenham ainda algum poder de me despertar a curiosidade, de me ficar roendo de vontade de saber o que se há de desdobrar dos murmúrios aparentemente insignificantes que meus habitantes vez ou outra soltam por aí. Deve ser algo como a curiosidade dessas pessoas que lêem séries ou histórias em capítulos publicados aos poucos, em reivistinhas de banca de jornal, blogs, o que seja. A diferença é que elas podem certamente contar com a regularidade que impõe o mercado – um autor jamais teria a cara-de-pau de passar um mês inteiro sem postar nada aos seus leitores, imagino – ao passo que eu, entregue aos caprichos dos meus hóspedes e de algum destino que deva porventura existir, posso ficar para sempre sem o desenrolar das mais instigantes tramas que em mim se tenham iniciado.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Felizmente, pouco tive de esperar para saber de Rosa em seu murmurar de raciocínio, Inocência, Inocência, seria mesmo?, e eu percebia que o que lhe passava pela cabeça seria decerto muito mais interessante do que eu conseguiria supor, e nenhum dos cupins que regularmente me roem os armários seria tão eficiente quanto a curiosidade que agora me roia. Porque eu sempre senti em Rosa um certo cheiro de trambique, aquele ar dissimulado de quem vai a qualquer momento dar o golpe e se mandar pra Europa. Eu bem pressentia. E quando a vi, ao longo dos dias seguintes, vir me limpar com uma frequência muito além do habitual – certamente combinara com Andréia de assumir toda a minha limpeza, e o sangue que há pouco me cobrira devia ter sido um argumento eficaz o suficiente para convencê-la – vendo-a assim todas as manhãs, a me faxinar com seus assovios e a energia que beirava a violência, tive então a certeza de que a coisa não pararia por ali. E tive também medo de não presenciar seu desfecho, o que significaria, para efeitos práticos, não conhecê-lo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Porque a minúcia com que Rosa me faxinava não era normal. Cada canto, cada detalhe, nos vãos da janela, atrás dos armários, na descarga da privada, em tudo ela metia um olhar de lince que só me alimentava a certeza: ela procurava. O que era eu não sabia bem, mas tinha um palpite tão certeiro que, quando a peguei afinal descobrindo entre os tacos soltos a carta e a caixinha de metal que Inocência escondera pouco antes de morrer, a vontade que me deu foi a de ter uma boca que gritasse Bingo!&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Ninguém viu como eu a iluminação que lhe deu no rosto ao perceber que um dos tacos não estava preso ao chão, e o jeito calmo porém firme com que se agachou, removendo o pedaço de madeira já como quem não se contém, a caixinha ali instalada, facilmente identificável a quem tivesse uma tal idéia de arrancar os tacos do chão, um meio sorriso de quem ainda não acredita na própria descoberta. Abriu furtivamente a caixinha e afinal eu tive ciência de que, durante todo aquele tempo, estivera ocultando em minhas entranhas uma meia dúzia de diamantes que, se não for a minha imaginação falando mais alto, valeriam uma fortuna considerável. Os olhos de Rosa brilhavam, como os meus, se existissem, e toda ela tremia dos pés à cabeça, dando-me a impressão de chegar a ouvir o tilintar dos diamantes no metal da caixinha. Fechou-a e a enfiou no bolso junto com a carta, rápido a ponto de Andréia, que aparecia na porta para lhe dizer qualquer bobagem, nada perceber.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;O que possa significar tudo isso, é coisa que me falta saber. O que posso dizer – e que me intriga acima de qualquer coisa – é o fato de que hoje pela manhã Rosa retornou, como sempre, e, vendo-se sozinha, removeu novamente o taco, olhou mais uma vez para o corredor a ver se não havia ninguém, e inseriu a caixinha igualmente cheia no seu lugar original. Da carta não tive notícias. Já a caixinha, em seu peso ínfimo, me incomoda como uma pedra no sapato.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-1984703689843703421?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/1984703689843703421/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=1984703689843703421&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/1984703689843703421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/1984703689843703421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2007/01/caixinha-de-metal.html' title='A caixinha de metal'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-2246874186647284158</id><published>2006-12-24T17:31:00.001-08:00</published><updated>2006-12-24T17:31:58.387-08:00</updated><title type='text'>A volta de Rosa</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;obs: Para entender melhor a história, é útil ler desde o post intitulado "As cabeças nas nuvens".&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Há coisa de cinco anos sou faxinado por Rosa. É uma garota de uns vinte e poucos anos, ou vinte e tantos, não mais, que me esfrega o chão e as vidraças como nunca o fizeram em todas essas décadas. Uma personalidade violenta, sem dúvida. Que despeje em mim suas mágoas e revoltas, eu francamente não me importo: os tijolos nunca sentem.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Rosa andou de férias pelo último mês. Ou ao menos assim o acredito, porque simplesmente desapareceu, e já faz tempo aprendi que quando os empregados somem e aparecem sem aparente causa maior, é certo que saíram de férias. Assim ocorreu com Rosa, que voltou inclusive com todas as marcas das férias. Bronzeada, sorridente, aquela cara de fotossíntese e carnaval. E o verão mal começou.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Pois Rosa saiu direto das praias ensolaradas para cair no sangue que me restava limpar de Inocência. Não me parece, de fato, a mais agradável das voltas ao trabalho, mas nem todos têm sorte na vida, e eu já não agüentava mais as manchas vermelhas que me marcavam o tapete e as bordas da cama. Porque Andréia não sabe o que é remover sangue, nos seus tremeliques e desmaios e gritinhos. Uma fresca. Já Rosa chegou com o gosto do desafio, empunhando o balde e os panos como se desembainhasse uma espada, Andréia à porta, observando tímida, posso te ajudar, Rosa, tem alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar? Rosa ria porque sabia que Andréia era de todo incapaz para a seriedade do trabalho, e comentava entre um cantarolar e outro:&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Eu vou é embora daqui, Andréia, eu vou é cair fora.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Andréia perguntava para onde como quem pergunta ainda se pode ajudar.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Eu vou é pra Europa, Andréia, pro frio, pra onde a vida seja mais fácil. Eu preciso é bem disso, é de arrumar um gringo rico que me tire dessa desgraceira desse país.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;E sendo tão descombinados esses seus comentários em meio ao bronze das praias paradisíacas que ela devia ter visitado, Andréia apenas a ignorava, inclusive porque não pudera ainda esquecer o problema do sangue:&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Rosa, você não imagina o que foi encontrar essa moça morta, você não imagina!&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- É, Andréia, não é fácil não. Por isso que eu quero é sair daqui.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Era uma garota tão tranqüila, ficava o dia todo trancada no quarto, mas saía direitinho na hora que eu tinha de limpar, era um amor de pessoa.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- É o que te digo: esse país não dá mais não.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Só Rosa pra me remover tão rápido as manchas, a minha eficiente faxineira. Percebi pela primeira vez estar com saudades dela.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Sério, Rosa, foi de longe a pior coisa que eu vi na vida. Não vou esquecer nunca, nunca...&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Claro que vai. Vai é esquecer tudo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- E você sabe o nome dela? Heim, você sabe?&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Rosa entrava agora na última etapa do trabalho, eu aliviado como se me tivessem retirado o peso da consciência.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Inocência.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;O assobio de Rosa parou de súbito, as mãos de Rosa paradas, o pano de chão pendendo de seus dedos e o sangue aos pingos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Inocência?&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Isso. Inocência. Engraçado, não? Uma suicida chamada Inocência.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Por um minuto ainda peguei a faxineira perdida nos cálculos, nas indagações. Era bem verdade que Rosa saíra de férias uma semana antes da vinda de Inocência, as duas não haviam chegado a se esbarrar.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- O que houve, Rosa? – Andréia não tinha sutilezas. Rosa acordou de repente dos devaneios, viu o sangue que me voltava ao sinteco, e recomeçou o trabalho.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;- Não, nada não. É engraçado, mesmo, muito engraçado. Mas o melhor é achar um gringo que leve a gente pra Alemanha, Andréia, ouve o que eu te digo.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas Andréia já havia partido, chamada por algum hóspede. E Rosa, o trabalho quase terminado, prosseguia nos murmúrios: Inocência, Inocência, seria mesmo...?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-2246874186647284158?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/2246874186647284158/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=2246874186647284158&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2246874186647284158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2246874186647284158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/12/volta-de-rosa.html' title='A volta de Rosa'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-2529388003085226353</id><published>2006-12-12T07:27:00.000-08:00</published><updated>2006-12-12T07:30:35.119-08:00</updated><title type='text'>Andréia descobre o corpo</title><content type='html'>obs: Para entender melhor a história, é útil ler desde o post intitulado "As cabeças nas nuvens".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 É difícil a noite com um cadáver dentro de nós. É difícil carregar a morte assim, como essência nossa. Nunca tive em mim uma morta, como Inocência, e menos ainda por uma noite inteira. Nunca vi mortos, nunca fui por eles habitado. (E aqui cabe repisar do meu grande sonho, o de ter um fantasma que preencha, que me atenue a solidão. Durante anos acreditei que pudesse ser Júlia, que pudesse ela voltar, depois de tantos anos no exterior, e décadas após a sua morte, o que quer que tenha sobrado dela fosse afinal se lembrar desse velho quarto que a acolheu, que a foi durante o que acredito ter sido o único período verdadeiramente feliz da sua vida. Que Inocência venha a me suprir essa falta de um fantasma: me faria bem.)&lt;br /&gt;             Mas a noite passou e não quero falar dela. Lembro-me dum livro que em mim leram há anos atrás, um inseto gigante com uma maçã apodrecida encravada entre suas asas, como ferida. Seja Inocência essa minha maçã de hoje à noite, e aí está tudo o que por ora direi sobre ela.&lt;br /&gt;              Conto desta manhã, de Andréia que me veio fazer a limpeza de todos os dias. Chegou pontualmente às dez, bateu na porta, e nada. Passou-se um tempo, voltou a bater. Nada. Andréia sabe que não é de bom tom insistir nesses casos: a hóspede pode querer dormir até mais tarde. Assim foi que até meio-dia Andréia aguardou, até não haver mais jeito. Forçou a maçaneta, a porta se abriu sem problemas. Só uma suicida para ter o cuidado de deixá-la destrancada. E das suas sobrancelhas contorcidas, o rosto tão pálido de quase sem lábios, dos gritos de pavor, o pano que levava à mão caído sobre o seu sapato e os braços petrificados apoiando-se na cômoda ao lado da porta, não, de nada disso tenho vontade de contar. Fique a cena na memória de cada um de vocês, breve e cortante como deveria ser. E fique também o que se seguiu, de como aos seus gritos logo uma meia dúzia de hóspedes e empregados a mim acorria, os rostos se multiplicando à minha entrada e ninguém entretanto com coragem a me adentrar e me livrar da Inocência maçã, até que a mim seu Castro, o dono, arrastando-se pelas escadas e os corredores, empurrando a todos os que se acumulavam como se espantasse cachorros, até o pé de minha cama, seus olhinhos mais arregalados do que jamais vira eu em 20 anos de convivência.&lt;br /&gt;            - Andréia, chama a polícia nesse minuto, murmurava ele. Neste minuto, Andréia, vai!&lt;br /&gt;            Mais uns cerca de 40 minutos e os policiais me ocupavam, incomodando-me com suas revistas a cada um de meus centímetros, examinando Inocência, tomando notas, a posição do corpo, a posição da arma. Seu Castro ao lado do delegado acompanhava tudo atentamente, a portas fechadas. Eu sabia que ele não confiava muito em policiais, e sentia nos próprios tijolos o quanto lhe devia ser penoso aquele episódio, o quanto se esforçava por ser simpático e, na medida do possível, acreditar que colaborava.&lt;br /&gt;            - Era uma boa moça, delegado, uma ótima moça. Passou mais de três semanas aqui, nesse quarto, antes de cometer esse desatino. Esses jovens são mesmo surpreendentes, não? Imagine o senhor: não saía, não bebia, não trazia gente aqui pra dentro, não fazia nada. Um anjo. E ainda pagava adiantado!&lt;br /&gt;            - Isso não diz nada, sussurrou o delegado, por entre os goles de café, a voz empastada pelo tédio. – Eles sempre pagam adiantado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-2529388003085226353?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/2529388003085226353/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=2529388003085226353&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2529388003085226353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/2529388003085226353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/12/andria-descobre-o-corpo.html' title='Andréia descobre o corpo'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-6388564755037721565</id><published>2006-12-04T01:01:00.000-08:00</published><updated>2006-12-04T01:02:20.340-08:00</updated><title type='text'>Inocência</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Estive enganado, mortalmente enganado: minha habitante que espera retornou. E como desejaria eu agora um dedinho de metafísica que me esclarecesse se os que como ela neste momento estão esperam, se esse estado dela de agora é ainda uma espera.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Porque Inocência, como viria a saber que se chamava, Inocência esta manhã abriu a porta do meu quarto. Eram 11 horas. Andréia fizera há pouco a faxina, e eu sentia – como quem acaba de sair do banho – um frescor de vento que me assustava as cortinas misturado ao eucalipto dos produtos de limpeza que me haviam esfregado. Estava acomodado na solidão das 11 da manhã, na sua perspectiva: ninguém chega neste horário. As diárias começam a contar a partir de meio-dia, seria um tanto quanto estúpido pagar um dia a mais pela uma hora que durará a espera – ainda ela. Mas Inocência não se incomodou de pagar. Tinha seus motivos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Abriu a porta devagar. Eu esperava alguém como Andréia, que viesse checar se esquecera alguma coisa, e eis minha habitante da espera; a que não mais espera. Penetrou silenciosa nas minhas paredes. Chegou-se a um canto e se pôs a pisar nos tacos do chão, como apalpando-os, como que testando. Contou o terceiro a partir da parede que abria para o banheiro, na fileira encostada à parede perpendicular. De fato estava meio solto aquele taco, e fiquei ponderando se ela já sabia disso antes.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Inocência agachou-se. Arrancou o taco com cuidado, que cedeu dócil às suas mãos. Meus pedaços são sempre fáceis, estão sempre à disposição de quem os queira subtrair: é o que o tempo faz conosco. Inocência sabia disso. Assim como sabia haver um vão entre o lugar que ocupava o taco e o cimento, um vão suficientemente grande para que a moça nele depositasse um envelope preto com algum papel dentro – eu me perguntava que louco seria atento bastante para repará-lo – e, sobre o envelope, uma pequena caixa de metal, chata e retangular. Ainda tive tempo de lhe ver a imagem gravada no tampo, as chinesas com seus guarda-chuvas à frente do mar, antes que as tapasse Inocência, recolocando cuidadosamente meu taco no lugar de sempre, eu tentando me acostumar ao frio do metal da caixa, uma vez que meu cimento nunca reuniria calor que a aquecesse.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Inocência então se sentou sobre a cama. Suas mãos tremiam. Olhou mais uma vez para a janela e acreditei que esperaria, como de praxe. Percebi, entretanto, e não sem certo pesar, que não era a isso que viera novamente a mim. Inocência estava cansada de esperar, cansada a ponto de, ao puxar a si a enorme bolsa de pano que carregava, de tirar de dentro dela um revólver pequeno como eu nunca vira – por mais que não tenha visto muitos revólveres por estas décadas – e, antes que eu me desse conta do que de fato ocorria, com ele estourou os miolos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Agora está aqui com seu corpo, caída na cama, a mancha vermelha e o que acredito serem os caquinhos de cérebro pelos colchões e o tapete, os respingos de sangue escorrendo pela minha parede. E eu à espera, ironicamente, à espera de quem me venha remover este corpo repulsivo e me restitua o frescor das 11 da manhã, a minha essência de eucalipto.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Se deveria me comover com tudo isso? Ora, eu sou só palco.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-6388564755037721565?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/6388564755037721565/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=6388564755037721565&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6388564755037721565'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/6388564755037721565'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/12/inocncia.html' title='Inocência'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-116432716536602687</id><published>2006-11-23T16:10:00.000-08:00</published><updated>2006-11-23T16:12:45.376-08:00</updated><title type='text'>À espera</title><content type='html'>Já há 23 dias me meto numa impaciência de querer escrever e não poder. Que eu esteja ocupado demais é desculpa de seres humanos: isso não existe para mim. Que me faltem lembranças ou histórias... só rindo de quem me viesse com algo parecido; se em mim ressoam ainda tantas vozes e lamentos e beijos que poderia eu os ficar aqui até o infinito, reproduzindo-os e recombinando-os, e caísse de velho este sobrado que integro, e fosse o Rio de Janeiro inundado pelos mares das geleiras que derretessem, que se fizessem as catástrofes todas prometidas, enfim, e ainda aqui estaria eu, compenetrado como quem resolve um problema de lógica, ruminando os eventos que já incorporei.&lt;br /&gt;            Mas nada disso me ocupa mais que o trabalho dessas linhas, de montá-las. O que me toma o tempo e o pouco de essência vazia que consigo reter, o que me faz, com o nível de mimetismo que só o cimento atinge, permanecer este quase um mês imóvel como um cômodo, é essa pessoa que me habita. Porque a encarno tão bem, porque a assumo como a alma profunda que há tanto desejo. E se as almas pudessem ser mais corpóreas que seus corpos, essa minha habitante seria ainda mais imóvel que sua habitação.&lt;br /&gt;            Ela espera. O que, exatamente, eu não sei, nem tenho esperanças de vir a saber. Sei que a tenho em mim e, encarnando-a tanto quanto me é possível, até o ar que me preenche pára, até as reverberações passadas – e conseqüentemente os meus pensamentos – se calam. Todo eu imobilizado, assim, mimetizado na espera apática de minha hóspede, nos seus modos de cimento, há 23 dias.&lt;br /&gt;            E creio que há décadas que não saberia eu dizer com tanta exatidão o que é a espera. Não a espera trivial, a espera do elevador, a espera do telefonema, do café da manhã, aquela que se atravessa roendo as unhas e enrolando nos dedos as pontas dos cabelos. Porque esperar não é jogar paciência, ouvir música, ou tampouco estar à Internet ou ao MSN. Não é acompanhar da janela o movimento dos carros ou espremer as espinhas. Isso não é saber esperar.&lt;br /&gt;            Esperar é, como minha pobre hóspede, deitar-se de bruços na cama e o vazio à frente. É como, nalgum post antigo talvez tenha eu dito, sentir minuto a minuto a lâmina do relógio. É chegar a este ponto em que já não se espera algo, espera-se simplesmente. Não sabendo se o objeto da espera há de chegar, mas prosseguir mesmo assim. Obstinada, exasperadamente, que a única espera verdadeira é a que se basta, a que se auto-consome.&lt;br /&gt;            Esperei com ela, sim, embevecido, esperei o que jamais me será dado conhecer, e nessa espera infrutífera percebo agora o quanto durante esse período voltei a ser cômodo; e o quanto o tempo, com suas reminiscências e movimentos, me foi corroendo ao longo dos anos a minha essência primeira de cômodo, o que não pensa, o que não se preenche.&lt;br /&gt;            Mas sendo esse o meu estado, suspensas as minhas idéias ao ponto que me obrigou a minha hóspede, como agora formulo essas frases?, talvez perguntem, como suspendo esse nosso estado de espera que nos fez visceralmente cúmplices não sei bem do quê (espero sabê-lo)? É que minha habitante há cinco minutos abriu a porta e saiu. Veio sem mala e sem mala se foi. Bateu a porta, passou a chave, e eu respirei fundo, quase alívio, e das minhas correntes de ar soaram suspiros da década de 20.&lt;br /&gt;            Quanto à hóspede, pode ser que volte, pode ser que não.  Saberei esperá-la, e enquanto não vem ela, remôo-me na minha coleção de eventos passados, os que já tiveram dissolvidas as suas esperas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-116432716536602687?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/116432716536602687/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=116432716536602687&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116432716536602687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116432716536602687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/11/espera.html' title='À espera'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-116243336607119625</id><published>2006-11-01T18:08:00.000-08:00</published><updated>2006-11-01T18:09:26.080-08:00</updated><title type='text'>As cabeças nas nuvens</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Tenho em mim há já não poucos dias um ser que nunca está onde gostaria, ou onde conviria. Entendem o que digo? Entendem essas pessoas que parecem sempre estar com a cabeça nalgum canto distante do universo, ou mesmo numa cidade próxima, remoendo algum passado que nunca tivesse existido e ainda assim presentes no presente que eu, como espaço que sou, realizo continuamente?&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;E essa pessoa que me hoje habita é tão desconfortável na medida em que não me deseja de fato habitar, que não mais me aceita por espaço no qual, infeliz ou inevitavelmente, ela se encontra. Vejo-a de instante a instante com os olhos presos no nada, nas janelas, cismando as suas fantasias como se fossem elas de fato possíveis, e quando essa determinada pessoa se dá conta do que há à sua volta, os raios de sol pelas paredes e a cama desfeita, ou seja, isto tudo que sou eu, percebo que ela, ao me perceber, sofre. Isso me enerva talvez mais do que eu gostaria de admitir. Primeiro porque esta pessoa me despertou uma simpatia oculta que torna a mim tudo desagradável como o é a ela – como se eu pudesse me desagradar por estar em mim mesmo. Em segundo lugar, porque nada há de mais desconcertante do que ser habitado por um corpo que não me habita de fato. Como uma alma que se nega a assumir a própria carne – se coubesse uma tal comparação –, ou como uma frase que não assume as próprias palavras – e aí me soa melhor a metáfora, mais assumível, ao menos. &lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas a pessoa que hoje trago comigo me rejeita e, decidida que está a não me ter por espaço que a circunda, sinto-me quase um não-espaço, um espaço sem validade. Me dá então uma vontade enfurecida de não ser mais o espaço que ela ocupa, mas os sonhos que ela traga. E colocamo-nos os dois a cismar com as nossas impossibilidades, como se aí, em pedaços de sonhos e devaneios que jamais se materializarão, pudéssemos enfim encontrar uma unidade. Não a dos átomos, naturalmente; a das assombrações.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-116243336607119625?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/116243336607119625/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=116243336607119625&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116243336607119625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116243336607119625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/11/as-cabeas-nas-nuvens.html' title='As cabeças nas nuvens'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-116136847875129083</id><published>2006-10-20T11:13:00.000-07:00</published><updated>2006-10-20T11:21:18.876-07:00</updated><title type='text'>As perversidades dos relógios de ponteiros</title><content type='html'>Quanto mais correm os dias e os anos, mais eu me dou conta de que os seres humanos não sabem em absoluto lidar com o tempo. Primeiro inventam as medidas todas, as horas, as semanas e os meses, os relógios de sol e os caminhares das estrelas, para tanta ciência culminar  no imenso relógio de cuco que durante décadas esteve encostado numa de minhas paredes.&lt;br /&gt;             Lembro-me tão bem de Júlia sentada à escrivaninha, lá pelos anos 40, irrequieta, estudando as provas de escola que nunca entendi bem para que serviam, mas a julgar pela seriedade com que Natália as considerava, que Minha filha deve ser culta e inteligente, e vendo a pobre menina debruçada nos livros, o relógio martelando ao seu lado e ela amiúde se voltando para conferir quantos minutos – ou segundos – se haviam passado desde a última vez em que interrompera a leitura, o último parágrafo lido, o problema de matemática já prestes a se resolver, e me dava nessas horas mais do que nunca a impressão de que ela afinal sentia o tempo como eu. Que sentia os minutos um a um, o peso de cada martelada do pêndulo e o cuco que de hora em hora se manifestava. Eu percebia, aliviado, que ao menos alguém era capaz de se entregar ao tempo tal qual sua própria humanidade o havia concebido. Que era capaz de viver instante a instante, de senti-lo sucessivo como o sentia eu sempre, cada vez que um tic-tac fazia vibrar as minhas paredes, cada vez que algum meu habitante dorme com o relógio ao seu lado, e vejo, desconfortado, que para ele as noites jamais passarão como para mim, com o sono a lhe embaralhar o tempo, a fazê-lo mais palatável, e menos duros os estalidos dos ponteiros.&lt;br /&gt;            Os humanos inventaram o relógio e não sabem viver segundo o relógio. Enlouqueceriam se o tivessem sempre à mão, ao pulso que seja, se os relógios que levam aos pulsos lhe pulsassem como esse cuco brutal por décadas pulsou o meu cimento. Por que continuam a fabricar e espalhar relógios, é essa uma grande dúvida, se os relógios nada mais são para eles que instâncias abstratas. Que imaginassem o tempo segundo as suas lembranças e as suas tarefas, que sentissem as horas ociosas passarem mais depressa e as ativas mais vagarosas – e não é a isto que chamam fazer o tempo render? –, talvez fosse mais honesto com si mesmos. Os homens não sentem que o tempo passa quando não estão olhando para os relógios, e por isso são felizes. Talvez cheguem a acreditar que os ponteiros não giram quando fora das vistas das pessoas, que se adiantam e atrasam num passe de mágica, segundo seus instintos e desejos.&lt;br /&gt;            Felizmente, quando Júlia abandonou a mim e a essa casa para morar com o marido – o que de maneira alguma considero um acontecimento feliz, no entanto – levou consigo o imenso relógio, e desde então, dos anos em que fui quarto de visita aos de depósito, os de abandono, os de habitantes esparsos e por fim o período de semi-demolição, por todo este tempo eu estive na agradável sensação de não ser ocupado por praticamente relógio algum e, portanto, de não ter de sentir o tempo medido no fio dos ponteiros. Anos felizes, digo, que aliás ainda prosseguem: quem nos dias de hoje colocaria um relógio de ponteiros num quarto de hotel, motel, o que seja? Porque os verdadeiramente perversos são os de ponteiros, os que pulsam e se fazem presentes. Não me incomodam quase os relógios digitais, como o da televisão. São discretos e pequenos.&lt;br /&gt;            Esta noite, entretanto, me apareceu um hóspede para me passar a noite. Chegou já tarde e cansado, tomou um banho rápido, se atirou na cama ainda enrolado na toalha, cochilou, acordou, olhou para um lado e para o outro, ergueu do chão uma enorme bolsa, quase sorrateiro, quase como proibido, e dela sacou um relógio despertador de ponteiros infernalmente barulhentos. Acertou o alarme para a manhã seguinte, os olhos pesados e os bocejos, e teve ainda ânimo de pousá-lo sobre a mesinha de cabeceira antes de desmaiar entre as cobertas.&lt;br /&gt;            Confesso que não é a primeira vez que me acontece. Meus hóspedes freqüentemente trazem seus relógios, e estes vez por outra não têm o privilégio de serem digitais. Não posso culpá-los, tampouco aos hóspedes. Sabem o que fazem: dormem e esquecem. E eu resto aqui, como agora, imerso no silêncio da madrugada e nos tic-tacs insuportáveis, os instante após o outro e tantos infinitos que faltam, percebendo o tempo com a minúcia que nem o mais sereno dos homens suportaria. Como nas décadas de Júlia, como na época em que ainda havia em mim paciência para suportar as excentricidades de meus habitantes, por pertencermos afinal todos à mesma época. Era mais suportável, quando eu não era um velho quarto que encara tudo do alto do seu quase um século de existência, e pede ao tempo que o poupe dessas pessoas detestáveis que não sabem trazer mais quase nada de novo ou interessante, que peço aos minutos desses ponteiros que não demorem muito a promover a minha inevitável demolição.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-116136847875129083?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/116136847875129083/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=116136847875129083&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116136847875129083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/116136847875129083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/10/as-perversidades-dos-relgios-de.html' title='As perversidades dos relógios de ponteiros'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115973387554053654</id><published>2006-10-01T13:16:00.000-07:00</published><updated>2006-10-01T13:17:55.546-07:00</updated><title type='text'>Apêndice ao post anterior</title><content type='html'>O puro instinto criador não inova, reproduz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a faculdade crítica que inventa formas novas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra de arte serve ao crítico simplesmente para sugerir-lhe uma obra nova ou  pessoal, que pode não ter nenhuma clara semelhança com a que critica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[A crítica é] uma criação dentro de uma criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oscar Wilde. “O crítico como artista”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115973387554053654?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115973387554053654/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115973387554053654&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115973387554053654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115973387554053654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/10/apndice-ao-post-anterior.html' title='Apêndice ao post anterior'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115920591334010279</id><published>2006-09-25T10:36:00.000-07:00</published><updated>2006-09-25T10:38:33.350-07:00</updated><title type='text'>Joana a contragosto: uma resenha</title><content type='html'>Hoje abriguei, com estas paredes que os guindastes hão de demolir, uma das situações mais curiosas que me acometeram desde que me tornei quarto de hotel, no início dos 90.&lt;br /&gt;            Começou há uns anos atrás. Era um casalzinho desses nada de especial, como ademais eu devo ter comentado aqui vez por outra, as secretárias e putas que me habitam, os carecas.&lt;br /&gt;            Como o sujeito, não propriamente um careca, mas nos seus bons esteriótipos das barrigas de chope, um paulista, ao que me consta, nos seus ares de romântico. A menina uma carioca e uma biscate, como percebi estar a todo momento na ponta da língua do nosso paulistano, ou aproveitadora, se assim se preferir. Joana, uma maluca com cara de índia que já não é a primeira vez me aparece, me adentra as paredes com seus professores barbudos e eventuais travestis, artistas, como diz ela, a estudante de cinema, ao que me consta, ou como ela mesma a todo instante se agrada de repetir. Acho que gostava em especial de mim, não sei, pelas duas ou três vezes que me habitou naquela época. Eu, da minha parte, naturalmente não me incomodo. É uma personagem divertida.&lt;br /&gt;            Mas o que digo não é nem sobre ela, e quase tampouco do sexo dos dois. Que transcorreu no fim das contas como os de todos os desconhecidos que teimam e se fazer de gostosos: a boa meia dúzia de ais e os gemidos, as poses e finjamos que podemos. Talvez um pouco mais teatral, este, com toda a encenação que à literatura e ao cinema convém inspirar.&lt;br /&gt;            Porque aí a novidade: que esse sujeito era na verdade um escritor, e que na verdade via tudo com os quatro olhos de quem pensa reaproveitar a cena nos seus outros objetivos. Que me examinava cada pedaço, cada canto, cada móvel, como reparei a princípio espantado, até que se explicasse num diálogo pós-sexo entre os dois, ela nos cigarros e olhares lânguidos, ele dando um nó na última das camisinhas usadas:&lt;br /&gt;            - Ainda escrevo sobre isso, Joana.&lt;br /&gt;            - Escreve aí, meu amor. Só não diz que esse hotel fica na Glória.&lt;br /&gt;            Ele não entendeu.&lt;br /&gt;            - É, vai por mim. Que fica no Largo do Machado, vai.&lt;br /&gt;            Confesso que me enciumei, me trocarem desse jeito por um hotelzinho qualquer do Largo do Machado, que no fim das contas não era nada, que sequer já devia ter tido Joana por habitante.&lt;br /&gt;            Mas eles falavam do livro, no qual tanta coisa se construiria, como o romancista prosseguia em seu monólogo, que diria terem transado cinco vezes – sem camisinha –, e diria que se haviam conhecido antes,&lt;br /&gt;            - Fala que eu te procurei – completava ela, o cigarro queimando – que te mandei uma foto da minha bunda por e-mail, e da minha xoxota em corte conservador também, e inclusive que disse que você era o maior escritor do Brasil e que te esperava aqui, bêbada de uísque, pra dar pra você.&lt;br /&gt;            Ele bebia uma lata de cerveja e aprovava com a cabeça. Era um sujeito engraçado, simpático. Certamente incapaz de sentir o que quer que fosse pela Joana, mas imaginativo o suficiente para montar os seus castelos. Escreveria o seu livro, era certo, e saberia me excluir cuidadosamente, assim como acataria toda a meia dúzia de clichês que ela sugeria.             Deviam ter se conhecido por aqui mesmo, pela Lapa. O tipo de situação que eu já cansei de presenciar. Divertiam-se, ele repetindo que quem sabe afirmaria tê-la amado, que não conseguiria esquecê-la, E os filhos que teríamos, continuava ela, uma filha indiazinha que nem eu lambuzada de chicabom, que tal?&lt;br /&gt;            Ao vê-los sair do meu prédio e entrar num táxi, pensei ligeiramente que gostaria de poder ler o livro, que o cara havia de escrever algo que de fato prestasse, e me enfureci por ser tão provável que jamais viesse a ouvir falar nele, como jamais me reapareceu Joana desde aquele dia.&lt;br /&gt;            Pois bem. Isso foi há uns anos. Hoje à tarde eu estava num tédio profundo, os pensamentos nos mendigos vizinhos e afins, quando, ao contrário de tudo o que deduzi do comportamento humano nesses mais de 90 anos de existência, me aparece no portal a cara de ninguém menos que o próprio escritor. Acanhado, as olheiras maiores e quem sabe até um princípio de choro, assim me soava ele, e o porteiro ao seu lado lhe dizia que entrasse, que examinasse o quarto, e ele Não, não precisa, só queria olhar assim de longe, e de tão amargurado quase desejei que não tivesse vindo, quase duvidei da latinha de cerveja que bebera naquela noite, sereno e sorridente, repetindo a Joana, entre risadas, o seu propósito de fazer um livro no qual inventaria amá-la.&lt;br /&gt;            Foi uma cena rápida, sequer cheguei a tê-lo entre as minhas paredes. Mas suspeitei que fingisse mais do que aparentava naquela noite, que sentisse deveras algo que o valha pela biscateira. Suspeitei que a latinha de cerveja fosse só uma desculpa à suas despretensões. E eu, que ao longo das décadas só soube fingir ser os outros ao sê-los tão completamente, vendo-o ali num sofrimento sedimentado a ponto de impedir que transpusesse a minha porta, ora, por tudo o que acreditei que ele não sentira naquela noite, percebi meu engano e me achei perfeitamente idiota.&lt;br /&gt;            Pensei então no livro, em que seria contado tudo o que supostamente não fora. E não digo que não me tenha consumido a curiosidade de saber se o meu romancista dos olhos desanimados de hoje à tarde encontrara ânimo a produzi-lo, se tirara do episódio e das próprias fantasias umas boas centenas de páginas, se achara o lirismo que não aparentava ao lado de Joana.&lt;br /&gt;            Fato é que os anos já passaram, e se o tal livro não tiver saído até hoje – a julgar pela expressão do indivíduo nessa tarde –, é possível que não saia mais. Mas, uma vez pronto e publicado, que o leiam os outros no meu lugar, por mim, pela minha impossibilidade. Porque, pelos fingimentos e as amarguras, pelo contragosto desta tarde ao menos, é certo que há de ser coisa boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana a contragosto&lt;br /&gt;Marcelo Mirisola&lt;br /&gt;187 páginas, R$ 28.&lt;br /&gt;Editora Record&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para uma resenha “em corte conservador”, acessem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.almanaquevirtual.com.br/ler.php?id=3648&amp;tipo=9&amp;amp;cot=1&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115920591334010279?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115920591334010279/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115920591334010279&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115920591334010279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115920591334010279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/09/joana-contragosto-uma-resenha.html' title='Joana a contragosto: uma resenha'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115904397971518768</id><published>2006-09-23T13:38:00.000-07:00</published><updated>2006-09-23T13:39:39.726-07:00</updated><title type='text'>À tarde</title><content type='html'>É alguma coisa com a tarde, talvez, ou com a vida, a pedra, o que seja, que eu não sei ainda exprimir – que não me tenham ecoado as frases suficientes a que o diga –, mas falta alguma coisa tão coisa nessa minha tarde que já quase não dá vontade de ter gente entrando e saindo, que já quase não dá vontade de ser gente – se um pouco gente eu puder me considerar, pelas décadas de convívio ao menos. Como se eu já não soubesse sequer ser quarto de hotel, não podendo mais suportar os outros que me vêm e me vão e me são, submisso à presença alheia como um pobre monte de pedras que sou, como um mendigo que, à falta de uma casa – do seu monte de pedras – não tivesse meios de se colocar fora das vistas dos transeuntes.&lt;br /&gt;Eu não sei o que é um mendigo, eu nunca fui um mendigo, nesse sentido de me ter algum deles adentrado. Os mendigos, exilados que estão desses cômodos das classes médias – como mais freqüentemente me classificam –, mas ouço deles, seus suspiros e pedidos, e sinto-os tão próximos como um meu olho que se pudesse estender para fora do meu campo de visão, para além da Praça Paris e do mar que já não vejo. Vejo-os, estendidos pelas calçadas à minha frente, estendidos como eu e estendidas as mãos que não tenho, os olhares perdidos nas passagens dos carros e nos canteiros distantes em que eu também me perco, e penso que se, como eles, pudesse andar daqui até ali, um quarteirão que fosse, ou me sumir das vistas alheias – nos parques, nas praias, na auto-demolição que fosse – vendo-me assim mais que montes de pedras e cimentos, mais que frases ecoadas – por que que frases poderá ter um mendigo? – e talvez me viesse a sensação que já não encontro nos meus pobres habitantes e nessas tardes solitárias, a sensação de ter algo que baste. E ainda assim, eles continuam imóveis na calçada, como eu, e sua desolação despreocupada de certa forma me consola.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115904397971518768?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115904397971518768/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115904397971518768&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115904397971518768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115904397971518768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/09/tarde.html' title='À tarde'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115833649021657333</id><published>2006-09-15T08:55:00.000-07:00</published><updated>2006-09-15T09:08:10.273-07:00</updated><title type='text'>Quando meu cimento espanta e conforta</title><content type='html'>FÁBULA DE UM ARQUITETO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arquitetura como construir portas,&lt;br /&gt;de abrir; ou como construir o aberto;&lt;br /&gt;construir, não como ilhar e prender,&lt;br /&gt;nem construir como fechar secretos;&lt;br /&gt;construir portas abertas, em portas;&lt;br /&gt;casas exclusivamente portas e teto.&lt;br /&gt;O arquiteto: o que abre para o homem&lt;br /&gt;(tudo se sanearia desde casas abertas)&lt;br /&gt;portas por-onde, jamais portas-contra;&lt;br /&gt;por onde, livres: ar luz razão certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                              2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que, tantos livres o amedrontando,&lt;br /&gt;renegou dar a viver no claro e aberto.&lt;br /&gt;Onde vãos de abrir, ele foi amurando&lt;br /&gt;opacos de fechar; onde vidro, concreto;&lt;br /&gt;até refechar o homem: na capela útero,&lt;br /&gt;com confortos de matriz, outra vez feto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Cabral de Melo Neto - A educação pela pedra&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115833649021657333?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115833649021657333/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115833649021657333&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115833649021657333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115833649021657333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/09/quando-meu-cimento-espanta-e-conforta.html' title='Quando meu cimento espanta e conforta'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115698872520293112</id><published>2006-08-30T18:45:00.000-07:00</published><updated>2006-08-30T18:45:25.206-07:00</updated><title type='text'>Plutão e eu</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Foi com certa nostalgia que hoje andei ouvindo pelos corredores que Plutão não é mais um planeta. Não que me interessem especialmente os temas astronômicos. Nunca saí sequer no canto que ocupo nesta casa, e é mais fácil a rua da Glória mudar de lugar do que eu me locomover um centímetro que seja. A distância a que me encontro do mar já é grande demais depois do aterro do Flamengo, que dirá de Plutão.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Acontece que tenho um carinho não confessado por Plutão. Lembro-me bem, o início dos anos 30, quando o ex-planeta foi descoberto. Eu era um jovem quarto, cerca de 16 anos na cara, a Júlia minha habitante conversando a mãe, e Natália anunciando: que há mais um planeta no céu, minha filha, não é incrível?, e é tão longe e tão gelado e a gente não sabe nada dele, mas não continua tão incrível? E eu conhecia Júlia a ponto de saber o que para ela isso poderia significar, ou seja, praticamente nada, e me ria abafado das preocupações de Natália, a educação de Júlia, porque a minha filha tem que ser bem informada, porque não basta saber bordar e tocar piano, porque tem que saber que Plutão existe e é um planeta.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Hoje continuo achando graça, talvez de uma forma ou de outra seja só o que me resta a fazer. Porque as pessoas levam tanto em conta as suas pobres definições humanas que chegam a ter pena de Plutão por não ser ele mais um planeta. Porque falam em dar um prêmio de consolação ao pobre Plutão rebaixado à categoria de planeta-anão. O mais importante dos planetas-anões, que lindo. Como se Plutão fosse se magoar. Como se ficasse ressentido porque num canto desconhecido do universo um punhado de seres estranhos o classificam não como um algo desconhecido, mas como um algo-anão desconhecido. Como se tudo isso fizesse alguma mísera diferença na existência de Plutão.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Que dêem prêmios de consolação aos astrólogos agora, eles precisam mais. Coitados, a confusão em que se meteram: Plutão rege ou não escorpião? E os novos planetas-anões, regem quem? Ou não seria mais simples colocar os outros planetas que sobraram para brincar de revezamento no lugar de Plutão? Como se não fosse tão explícita a impotência do homem perante a grandeza do universo, como se bastasse uma meia dúzia de cálculos e fantasias a modificar os astros e os destinos. A astrologia... taí outra das coisas engraçadas dos humanos. Chega a parecer que faz diferença no destino de alguém Plutão ser ou não um planeta. Parece até que Plutão não é mais que um quarto de hotel.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Porque o pior é ter de reconhecer, ao contrário dos planetas, que me faz tanta diferença qualquer coisa que as pessoas queiram fazer de mim. Que me peguem para quarto de família, de hotel, depósito ou sala de estar, que simpatizem comigo e tenham desejos de me habitar: qualquer capricho humano me afeta tão radicalmente que chega a dar agonia o barulho dos passos se aproximando no corredor, a expectativa das reviravoltas que podem me acontecer sem nenhum aviso prévio. É que os seres humanos acreditam tão fortemente controlar todo o universo quanto de fato me controlam.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;E o que me poderá restar de sentimento desse universo então, senão uma pontada de inveja?&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115698872520293112?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115698872520293112/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115698872520293112&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115698872520293112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115698872520293112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/08/pluto-e-eu_115698872520293112.html' title='Plutão e eu'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115559960922342318</id><published>2006-08-14T16:52:00.000-07:00</published><updated>2006-08-14T16:53:29.236-07:00</updated><title type='text'>Os quadros da minha vida (I)</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Um quadro é talvez como um parente, ao menos pelo que pude até hoje perceber de parentescos. Chegam e me colocam um prego na parede, sem que eu nada possa fazer, penduram-me um quadro que não pedi, sem perguntar a minha opinião ou considerar qualquer gosto estético que eu pudesse porventura desenvolver, e está feito: que eu conviva anos e anos, décadas a fio com essa placa da madeira nas costas, por assim dizer, retangular como eu, como eu rígida na sua imobilidade, e, no mais, completamente estranha à minha história – a despeito da história que venhamos a construir juntos. Chega a ser engraçado.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;No fundo, tudo depende do gosto do meu proprietário no momento, e até certo ponto da sorte de lhe aparecerem bons quadros a preços razoáveis, ou os que por algum motivo lhe caiam nas mãos – presentes, pagamentos de dívidas, já vi muito disso. E depende ainda desse meu proprietário ter o bom senso de saber o que combina comigo, de atentar para as minhas cores e perceber num nível mínimo as nuances de colorido e iluminação que me são tão óbvias.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;É verdade que, mesmo assim, já desenvolvi laços saudáveis e duradouros com algumas gravuras da cerca de uma dúzia que já sustentei. Em geral não há muito o que fazer: ninguém troca os quadros da sua casa com tanta freqüência, de modo que vale mais a pena estabelecer alguma relação amigável com um quadro do que odiá-lo por um tempo absolutamente indeterminado e, portanto, eterno.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Aliás, relação talvez seja um termo forte demais. Não chego a me relacionar com ninguém, não tenho a menor condição – e nem sequer a intenção – de responder voluntariamente ao que quer que seja. Só ecôo o que reverbera em mim, algo certamente não muito mais complexo do que faz um papagaio. Como tudo e todos na vida, ao que me parece.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Desse jeito, ficamos ambos unidos, eu o quadro, o contato permanente, ele pesando sobre mim e eu agüentando, o mofo e o limo que compartilhamos, eventualmente uma teiazinha de aranha e uma vez até mesmo uma toca de marimbondos, com um pequeno retrato de Natália que ficou esquecido num canto quando permaneci toda a década de 50 semi-abandonado. As gotas de chuva que a janela não detenha, a mesma poeira e o calor no verão. Dois retângulos abobalhados que somos, juntos porque não haveria outro jeito, porque um terceiro assim decidiu, colados por um prego que só faz enferrujar e nos corroer a ambos com o tempo e a umidade. E continuamos alheios um ao outro, sem palavras ou respostas, cada qual com seus átomos e suas tintas baratas, imersos em suas próprias concretudes, sem contato maior que reverberações que nada dizem. É uma relação interessante.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Digo isso porque outro dia me vi privado de um dos mais caros desses meus companheiros de tédio e intempéries. Coitado, caiu no meu chão com um estrondo terrível esta manhã. O prego que o sustentava não resistiu.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt;"&gt;Mas sobre ele continuo no próximo post.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115559960922342318?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115559960922342318/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115559960922342318&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115559960922342318'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115559960922342318'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/08/os-quadros-da-minha-vida-i.html' title='Os quadros da minha vida (I)'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115457234339353743</id><published>2006-08-02T19:31:00.000-07:00</published><updated>2006-08-02T19:32:23.403-07:00</updated><title type='text'>Aguardando o retorno de Kurtz (I)</title><content type='html'>Dezembro já está pela terceira semana, e falta Kurtz. Meu hóspede mais fiel: cinco verões juntos, metade de dezembro e metade de janeiro, ele sempre o mesmo e sempre em mim. Como tempos circulares, que vêm e vão: Kurtz sempre vem. À exceção do ano passado, em que simplesmente não apareceu. Às vezes me pergunto o que terá acontecido. Se desistiu do Brasil, do Rio, deste hotel, de mim. Verdade que seria muito esperar que sempre viesse para cá, que tivesse este cuidado. Por baixo do seu jeito taciturno é uma pessoa rude, e eu não poderia de qualquer forma supor que tivesse esse senso nostálgico que leva alguns a procurarem os mesmos quartos, a pensarem nos quartos como algo mais que um teto e uma cama, como algo em que se deva pensar. Kurtz nunca me pareceu ser desses espíritos, e não tenho justificativas melhores do que o acaso para ter me habitado tantas vezes seguidas.&lt;br /&gt;Da vida de Kurtz mesmo, para fora de mim e do Brasil, sei pouco. Ainda assim mais do que a maioria dos meus habitantes, os consumidores do meu oxigênio, os que passam pelas minhas paredes por não mais que alguns dias ou mesmo horas, infiéis, inconscientes do esforço que dispendo dedicando-me a sê-los por completo, a lhes guardar as vergonhas e os segredos. Porque é muito difícil apreender toda a consistência de uma pessoa quando ela permanece tão pouco, quando ela me deixa tão pouco dos seus átomos e memórias. E mais complicado em se tratando de tantas pessoas, tantos passantes indo e vindo. Algo como, digamos, uma promiscuidade de essência, é do que hoje sofro, o mal de todos os quartos de hotéis.&lt;br /&gt;Mas de Kurtz sei que é norueguês, que pesca bacalhau nas costas da Noruega – sim, não riam: meu mais caro habitante hoje em dia é um pescador de bacalhau – e que aparentemente tem ou já teve uma mulher por lá. Ao menos foi o que concluí pelos poucos indícios que me dá, pela foto que eventualmente tira da carteira – sempre a mesma, ao longo de tantos anos – e observa atento como só um pescador de bacalhau norueguês poderia fazer, sem demonstrar saudade, luto ou amor, os olhos congelados nas formas de uma mulher tão loira que dá a impressão de não ter sobrancelhas, sentada numa cadeira de ferro, um jardim ao fundo, coberta por uma manta xadrez, um sorriso quase defunto de tão sereno. Que seja esposa, amante, mãe, irmã, pouco me importa. Só torço para não ser a voz esganiçada que lhe telefona da Noruega, que lhe grita ao telefone profusões de exclamações nessa língua peculiar que é o norueguês, megera como nunca poderia ser uma mulher como a da fotografia, em seu sorriso sereno, sorrindo no lugar das sobrancelhas invisíveis. Essa mulher que liga de três em três dias quando Kurtz vem para cá, infernal, quase me dá vontade de desmoronar sobre o telefone, que deixe Kurtz em paz, que pare de amolar o meu hóspede preferido, que não desmanche esse seu jeito ciscunspecto, o seu jeito de cômodo. Porque nunca alguém se pareceu comigo tanto quanto Kurtz na sua imobilidade de concreto. Kurtz imóvel como um cômodo, nós dois num estado próximo a irmãos gêmeos, simbióticos, a foto e o sorriso da mulher enrolada na manta xadrez nos habitando o coração e as paredes, e não fosse essa a mesma do telefone, e talvez ele não acredite que seja – eu não acredito. Eu rio dela e do desconcerto de Kurtz, rio porque acredito em tudo o que não deveria: que ele realmente me escolhe por afinidade, que escolheu por amor essa moça do retrato.&lt;br /&gt;Sinto falta de Kurtz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115457234339353743?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115457234339353743/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115457234339353743&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115457234339353743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115457234339353743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/08/aguardando-o-retorno-de-kurtz-i.html' title='Aguardando o retorno de Kurtz (I)'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115376318881982335</id><published>2006-07-24T10:44:00.000-07:00</published><updated>2006-07-24T10:46:28.833-07:00</updated><title type='text'>O dia seguinte</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Se tem alguma coisa que me desagrada imensamente é muita bagunça por nada.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Como um casal que eu fui ontem à noite. O tipo de casal mais banal, e talvez não por acaso, o que mais adora me ser. Como essas pessoas que trabalham no centro da cidade e chegam aqui no início da noite, as roupas cheirando à fumaça do asfalto e os bafos de café com coxinha, os olhos afundados nas olheiras e essa sensação curiosa d’alguma possibilidade de ainda assim ser sexy. Como as centenas de secretárias de calcinhas gastas que já me tomaram por habitação aos seus executivos, como os executivos rechonchudos que, como este que aqui ontem à noite me foi, teimam em trazer suas secretárias aos quartos desses hoteizinhos de segunda, como eu, arrumadinhos mas tão nada demais, como eu.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Até aí eu me divirto. Que venham aqui me tomar para as suas fantasias rasas e banais como todos eles, sempre as mesmas – e como é possível passar mais de 90 anos acompanhando fantasias que praticamente não mudam! – e que me aproveitem, sendo eu isso mesmo, o lugar onde possam suspirar num arroto: aqui temos o direito de ser livres, e que sorriam debilmente um para o outro, que passem as secretárias as mãos pelas tinturas dos cabelos, acreditando-se tão sensuais nas suas unhas pintadas, e os executivos tirando-lhes as calcinhas pensem que ainda não era bem isso, que talvez se pudesse achar algo melhor, mas se confortem afinal, porque são essas as secretárias que lhe cabem.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Até aí eu não reclamo. Eu me divirto. Eu me divirto com os pudores do executivo que me foi ontem, por exemplo. A secretária se desmanchando nos strip-teases, sorridente nos seus peitos caídos, chupando e lambendo o cara até encher os meus lençóis de saliva, como se já não bastasse o próprio suor do sujeito, as banhas se esparramando pela cama e as suas tentativas tão frágeis de colocar a camisinha sem pôr tudo a perder, e o sorriso da secretária depois de algum tempo mais de nervoso do que de qualquer tesão – às vezes não dá mesmo para entender essas pessoas que insistem – e o ridículo da coisa toda que só mesmo um quarto como eu para legitimar.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas até aí sem problemas: eu me divirto. Desde que não criem mais desordem do que demandam os seus prazeres, desde que a bagunça depois não seja demasiada para a imaginação pouca e os fracassos. Porque francamente, para um casal ruim de cama como esse que me foi ontem à noite, francamente, eu não precisava ficar no estado em que me deixaram. Eu não precisava das cinco ou seis camisinhas espalhadas pelos cantos, desperdiçadas nas inúteis tentativas do meu hóspede. Eu não precisava depois do seu gozo me manchando os tapetes – porque no final, já tendo se esgotado o estoque de camisinhas, eles partiram mesmo para o coito interrompido –, e tampouco dos suores dos dois, e tampouco das suas salivas e dos montes de papel higiênico que teimaram em gastar até para se esfregar nas bochechas. E a desordem dos móveis, as manchas do vinho que trouxeram nos meus lençóis, os contornos dos copos me marcando as mesinhas de cabeceira. E o óleo da porção de batatas fritas que pediram depois de tudo – por que o que saberia fazer um casal como aquele além de comer batatas fritas? O trabalho que a Andréia teve hoje de manhã – e não quero nem imaginar em que estão ficou depois o banheiro –, ora, parece até que limpava os restos de um bacanal. Meus tapetes tiveram de ser retirados para a lavanderia, mas meu colchão permaneceu, imundo e ignorado.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;E eu nessa exasperação de ter que agüentar, tantas vezes e tantas pessoas desagradáveis para agüentar. Que sejam higiênicos na medida das suas limitações, era o que eu queria a todo custo poder transmitir. Era aliás a minha mensagem mais urgente à humanidade.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas não souberam, coitados, não poderiam saber. Foram-se ontem mesmo, duas horas mais tarde, para o meu alívio, cheios de olhares cúmplices.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115376318881982335?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115376318881982335/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115376318881982335&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115376318881982335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115376318881982335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/07/o-dia-seguinte.html' title='O dia seguinte'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115325490889126344</id><published>2006-07-18T13:33:00.000-07:00</published><updated>2006-07-18T13:35:08.900-07:00</updated><title type='text'>Manhã chuvosa</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Acredito que choveu hoje de manhãzinha. Ninguém tinha ainda aberto as minhas janelas para me liberar a visão, mas o frio que me tomou as paredes dava uma certa impressão de umidade, quem sabe uma névoa de início de manhã.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Lembra um pouco os meus tempos de quarto de família, a Júlia criança me abrindo a janelas bem cedinho, antes de ir para a escola, os postes da Praça Paris ainda acesos no azulado do fim da madrugada, o café fumegando na xícara que ela costumava trazer aqui para cima. Porque, estando sempre atrasada, era comum a Júlia se vestir ao mesmo tempo em que acabava de tomar o café e revisava os deveres de casa. Acendia as minhas lâmpadas, então, e eu me sentia um único e pequeno ponto de luz num universo longínquo. O mar se estendia à minha frente, eu me querendo ainda mais recolhido do que pode ser um cômodo pela própria natureza, aconchegante e íntegro como um grande envoltório, um cobertor. Seguia então os movimentos de Júlia um a um, a pressa de se vestir e os olhos cheios de remela. Assistia-a no meu desejo desesperado de poder ajudá-la de alguma forma, de ter braços que lhe vestissem a camisa ou bocas que lhe soprassem as respostas dos deveres. Ela era tão avoada.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas a aflição não chegava a durar: eu sentia – e nisso me via afinal ao menos um pouco útil – que a Júlia precisava de mim para pôr um ponto final nos deveres e no sono, como se só as minhas luzes acesas no frio da manhã para sinalizar que o dia de fato começara, o frio das paredes e o cheiro do café animando os seus sentidos. Bons tempos.&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;Porque acho que uma das grandes infelicidades de ser hoje um quarto de hotel é essa incapacidade dos hóspedes de acordar cedo, de perceber a manhã como Júlia a percebia quando, em meio ao atabalhoamento da pressa, se voltava para a janela aberta e percebia, como eu, que o início da manhã carregava um algo mais de mágico que nenhum de nós podia definir bem, essa névoa azulada, talvez, e que essa percepção era necessária a que o dia fosse mais espesso, a que o dia se estendesse para um nível além das suas aulas e das minhas horas solitárias. Mas não. Esses meus hóspedes, quando por acaso acordam cedo, vestem-se rapidamente, na penumbra, as janelas fechadas e no máximo um abajur aceso. Nem me lembro mais a última vez em que um miserável qualquer se dignou a abrir um pouco que fosse a janela e me deixou apreender a manhã. Parece que não pensam nisso, que não faz diferença. Ou eu que não sei mais ser o quarto de alguém. Tanto faz. Só sei que minhas paredes estão úmidas, e é só por isso que acredito que chove.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115325490889126344?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115325490889126344/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115325490889126344&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115325490889126344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115325490889126344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/07/manh-chuvosa_18.html' title='Manhã chuvosa'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31141619.post-115291844107711870</id><published>2006-07-14T16:05:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T16:07:21.086-07:00</updated><title type='text'>Tentativa de definição</title><content type='html'>O que é no fim das contas um quarto?&lt;br /&gt;          O mais essencial: quatro paredes – na maioria esmagadora dos casos –, um teto, um chão. Porta, janela.&lt;br /&gt;          Tenho duas portas: a que dá para o corredor e a mais recente, que me liga ao meu apêndice, um horrendo banheiro que me transformou em suíte desde que decidiram forçar a ser um hotel esta casa velha da qual sou parte. Há coisas com as quais a gente nunca se acostuma.&lt;br /&gt;          Já minha única janela é um belo janelão envidraçado, desses que vão quase até o teto, um dos meus orgulhos. Nos longos períodos que se passaram sem ninguém se preocupar em podá-las, as copas das árvores me invadiam quando a janela era aberta. Hoje às vezes posso perceber os ramos se enroscando nas minhas grades de ferro, e me sinto feliz porque me lembra a Júlia.&lt;br /&gt;           Além de portas e janelas, hoje sou chão de tacos de madeira, quatro paredes brancas e um teto que nunca ninguém parou para verificar que é inclusive branco. Um quarto, afinal.&lt;br /&gt;            Acontece que é pouco. Acontece que eu sou também os móveis, os milhares de camas, mesas, cadeiras, quadros, cortinas e armários que já me mobiliaram ao longo de quase um século. Eu sou também as pessoas que já me habitaram, as mais queridas e as mais insanas, e sou também os sonhos e sussurros que essas minhas paredes envolveram. Todas as palavras que reverberaram pelo meu cimento, os pensamentos das cabeças todas que abriguei, e os travesseiros nas quais elas se deitaram e as lágrimas que sobre eles foram derramadas. Eu fui Júlia por anos e anos, minha primeira e mais querida moradora, e hoje sou a cada semana os hóspedes que passam por mim, os estranhos que me trespassam por tão poucas noites que já nem dá para senti-los como pessoas que habitam. Porque várias delas não são mais que montes de calor e movimento para me sacudir um pouco a imobilidade, para me distrair, o que seja. Consumidores de oxigênio.&lt;br /&gt;           Mas talvez, acima de tudo, talvez mais até do que cimento e tijolos – a condição mais primordial –, talvez eu me perceba em primeiro lugar nas palavras que no meu interior já ecoaram, na quantidade de palavras que podem ser ditas em mais de 90 anos e por inumeráveis bocas, e que agora se reorganizam, que agora tomam uma forma, a minha forma, numa massa de concreto que há muito já estivesse presente, suspensa no teto que nunca ninguém parou para olhar, e que agora se concretiza nessas frases.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31141619-115291844107711870?l=eusouumquartodehotel.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/feeds/115291844107711870/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=31141619&amp;postID=115291844107711870&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115291844107711870'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31141619/posts/default/115291844107711870'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusouumquartodehotel.blogspot.com/2006/07/tentativa-de-definio.html' title='Tentativa de definição'/><author><name>Victoria Saramago</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10157649255551981419</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry></feed>
